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Paulo Mateus

O legado de Moreira da Silva e a urgência do presente

A questão deixou de ser a ausência de instrumentos. A questão é a capacidade de execução consistente, focada e continuada.

Este texto nasce da minha intervenção na apresentação pública do livro “Moreira da Silva, um Pioneiro da Ação Florestal”, recentemente publicado. Não é uma transcrição literal desse momento, mas uma reflexão amadurecida, motivada pelo reconhecimento de um legado que importa revisitar, discutir e, sobretudo, aplicar.  

José Moreira da Silva foi um homem inspirador.  Continua a sê-lo — talvez hoje mais do que nunca. 

O livro é particularmente feliz e oportuno. Reúne o pensamento do próprio, o testemunho dos seus pares, da família e dos amigos, oferecendo uma visão rara e coerente de um homem que marcou profundamente o sector florestal português. 

Conheci o engenheiro Moreira da Silva em 1993, quando iniciava o estágio final do curso. Ao longo dos anos, através de conversas diretas e visitas de campo, e pela influência dos meus mestres na gestão do fogo – Hermínio Botelho, Francisco Rego, mas também António Salgueiro e Paulo Fernandes – fui-me aproximando do seu pensamento e da sua forma de estar. 

Sistematizo o seu legado em três dimensões indissociáveis: pensamento, ação e comportamento. 

Pensamento: uma visão integral e atual 

O pensamento de Moreira da Silva continua atual. 

Defendia uma abordagem integral do desenvolvimento – social, económica, ambiental e cultural – como a única via para sociedades mais justas e livres. Foi pioneiro na reflexão estruturada sobre a defesa da floresta contra incêndios, desde logo com os “Princípios Básicos da Luta Contra Incêndios na Floresta Portuguesa”, de 1965. 

Alertava para os perigos das soluções milagrosas. Lembrava que o fogo controlado é uma ferramenta útil, mas não uma panaceia. Recusava a obsessão com a culpabilização das ignições e repetia: o incêndio florestal é uma calamidade, mas não pode ser uma fatalidade. 

Talvez uma das ideias mais fortes de Moreira da Silva – e mais ignoradas – seja esta: gerir a floresta é a melhor forma de a proteger; proteger a floresta é a melhor forma de a gerir. a sua posição era clara quanto a uma fragilidade estrutural do país: a necessidade de mais e melhor Estado na floresta, com uma Administração tutelar forte, competente e central no desenvolvimento nacional. 

Paulo Mateus

© Paulo Mateus

Ação: foco, inovação e coragem 

Moreira da Silva não se ficou pelas ideias. 

Nos Serviços Florestais promoveu reformas profundas: reorganizou a prevenção de incêndios, estruturou baldios, inovou na produção de plantas, transformou a abordagem à caça e à pesca. No Parque Nacional da Peneda-Gerês, alargou a intervenção a áreas como arqueologia, sociologia, fauna selvagem, energias renováveis e turismo. 

Foi pioneiro no uso do fogo controlado, reconheceu precocemente a importância das equipas de sapadores florestais e lançou projetos experimentais – como o da arborização da Serra do Marão após o grande incêndio de 1985 – que continuam a ser referência. 

Já no final da carreira, e depois de reformado, antecipou o papel estruturante das associações florestais no desenvolvimento regional, culminando na fundação da Associação Florestal FORESTIS, em 1992. 

Comportamento: o verdadeiro legado 

Mas é no comportamento que reside, talvez, o legado mais marcante de Moreira da Silva. 

Os testemunhos reunidos no livro são claros: foi um homem de cultura vasta, aberto ao mundo, inovador, exigente, mas profundamente humano. Sabia ouvir, cooperar, provocar e questionar. Era generoso, humilde, inconformado e fiel à verdade. 

A sua vida foi coerente com o que defendia. E isso faz toda a diferença. 

Três lições para o futuro, inspiradas no exemplo de Moreira da Silva 

A segunda questão colocada no lançamento do livro convidava-nos a olhar para o futuro. Aceitei o desafio inspirado pelo seu exemplo e destaco três lições essenciais. 

Primeira lição: a abordagem integral 

Vivemos num contexto de profunda transformação social, económica e climática. A “Modernidade Líquida”, de que falava Zygmunt Bauman, descreve uma realidade marcada pela volatilidade e pela fragilidade das relações institucionais. Este contexto exige instituições mais ágeis, mais simples e mais capazes de decisão. 

O fogo rural, como lembra Stephen Pyne, é a síntese do contexto: clima mais quente e mais seco, eventos extremos, abandono da gestão e enfraquecimento do mundo rural. 

Moreira da Silva insistia numa abordagem integral – social, económica, ambiental e cultural – e recusava soluções simplistas. Essa abordagem implica ligar prevenção, gestão, economia, paisagem, biodiversidade e risco. Implica também reconhecer que o “cliente” do sector florestal não é abstrato: são os cidadãos, os proprietários, os produtores, as associações, os municípios, a indústria, os agentes de proteção civil e, em última instância, o próprio Estado. 

Sem visão integral, qualquer política florestal será sempre incompleta e, por isso, vulnerável. 

Segunda lição: o foco na ação 

Nesta segunda lição, proponho que o foco da reflexão incida sobre os Serviços Florestais. Moreira da Silva era um homem dos Serviços. 

No livro “Porque Falham as Nações”, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, distinguidos com o Prémio Nobel da Economia em 2024, os autores associam o insucesso dos Estados à fragilidade das suas instituições. No sector florestal português, uma das raízes do problema estrutural – de que os incêndios são consequência recorrente – é precisamente aquilo que José Moreira da Silva identificava sem ambiguidades: a débil capacidade da Administração tutelar, isto é, a fragilidade dos Serviços Florestais. 

O Relatório da Comissão Técnica Independente de 2017 foi claro: as deficiências do quadro institucional e do modelo de governança contribuem para agravar o problema dos incêndios florestais. A pergunta impõe-se: essa conclusão continua válida, após mais um ano (2025) com 270 mil hectares ardidos? 

O fogo, que sintetiza o contexto climático, territorial, social e institucional não engana. Se os resultados se repetem, apesar da acumulação de diagnósticos, planos e instrumentos estratégicos, é porque o problema central permanece por resolver. 

No livro sobre Moreira da Silva, João Soares identifica um sentimento de orfandade dos Serviços Florestal. Expressão forte, mas elucidativa, essa orfandade traduz-se em instabilidade organizacional, dispersão de missões, fragilidade da autoridade técnica e perda de centralidade no aparelho do Estado. 

Reconhecer esta fragilidade é condição necessária para a mudança. Mas essa mudança tem de acontecer e tem de ser assumida, em primeiro lugar, por quem está ligado aos próprios Serviços. A transformação institucional não se impõe: constrói-se a partir de dentro. 

É legítimo, por isso, colocar algumas questões estruturais. 

Os Serviços Florestais têm hoje uma missão claramente definida, priorizada e partilhada internamente? As suas diferentes funções – gestão do risco (incêndios, pragas e doenças), gestão florestal pública e comunitária, regulação do sector, caça e pesca, conservação da natureza e da biodiversidade – estão devidamente hierarquizadas ou concorrem entre si? 

Importa também questionar se quem os dirige está focado no essencial ou absorvido pela contingência permanente? Se os trabalhadores se sentem enquadrados, valorizados e justamente compensados? Qual é o grau de independência técnica face ao poder político? E que equilíbrio existe entre o nível central e as estruturas regionais? 

Planeamento não falta. Existem uma Lei de Bases, uma Estratégia Nacional, planos setoriais, programas de intervenção, relatórios técnicos e pareceres especializados. A questão deixou de ser a ausência de instrumentos. A questão é a capacidade de execução consistente, focada e continuada.

Coloca-se, assim, uma interrogação final – talvez a mais incómoda: será que o problema é sobretudo de meios, ou de foco e de comportamento institucional? Ou, retomando o ensinamento de Moreira da Silva: não será necessário recuperar uma atitude mais livre, mais verdadeira, mais corajosa e mais coerente no exercício da função pública? 

Terceira lição: o respeito 

A terceira lição é, aparentemente, a mais simples. Mas é, talvez, a mais difícil de praticar: o respeito. 

Respeito pelo passado, pelas pessoas e pelo caminho já feito. Reformar não é destruir. Mudar não é apagar. 

A experiência mostra que muitas reformas falham não por falta de boas intenções, mas por falta de cuidado para com as equipas existentes, pelas competências acumuladas, pelas práticas que funcionam e pelo conhecimento tácito. 

Qualquer reforço da Administração tutelar exigirá integração de equipas, cooperação interna e valorização profissional. Exigirá qualificação, meritocracia, disciplina, exigência, transparência e avaliação. Mas exigirá também tempo, estabilidade e confiança. 

Não há instituição forte sem trabalhadores respeitados, nem há serviço público moderno sem exigência, mas também sem dignidade. 

Moreira da Silva foi exigente e, ao mesmo tempo, profundamente respeitador. Sabia ouvir, integrar, motivar e provocar sem destruir.  

Num sector frequentemente marcado por ciclos de reforma e contrarreforma, por reestruturações, por mudanças de tutela e de modelo, esta lição é particularmente atual: o respeito é uma condição silenciosa da eficácia. Sem ele, não há compromisso. E sem compromisso, não há mudança. 

Um desafio coletivo 

Portugal continua a falhar na gestão do fogo rural. Os Serviços Florestais não são a única fragilidade institucional, mas são centrais – e eram a casa de Moreira da Silva. Por isso, é um dever ético e cívico questionar, provocar e desassossegar. 

O futuro depende do que fizermos hoje. Estamos, uma vez mais, numa encruzilhada: ou mudamos de forma efetiva ou adiamos, de novo, a mudança. 

Precisamos de referências fortes. Moreira da Silva deixou-nos uma: agir com conhecimento, coragem e coerência.

Março de 2026

O Autor

Paulo Mateus tem dedicado a sua carreira à gestão integrada da floresta e do fogo. Mestre em Engenharia Florestal pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, pós-graduado em Engenharia dos Recursos Florestais e licenciado em Engenharia Florestal, em 2026 exerce funções como Vogal do Conselho Diretivo da AGIF – Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais e integra o Conselho de Administração do Laboratório Colaborativo ForestWise.  

Integra os quadros do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, onde desempenhou funções técnicas diversas, tendo atuado também como perito da Comissão Europeia em Incêndios Florestais. 

Anteriormente, Paulo Mateus foi Adjunto da Estrutura de Missão para o SGIFR – Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Florestais e membro da Comissão Técnica Independente que analisou os incêndios de 2017. O seu percurso inclui ainda cargos como Diretor Nacional da Autoridade Florestal Nacional e Subdiretor-Geral da Direção-Geral dos Recursos Florestais.  

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