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Míriam Arenas Conejo

Aprendizagem Baseada em Projetos: a proposta educativa do projeto Edufire sobre incêndios e clima

Apoiado pela metodologia da Aprendizagem Baseada em Projetos, o projeto Edufire Toolkit desenvolveu uma proposta educativa para estudantes entre os 12 e os 16 anos sobre incêndios florestais e alterações climáticas. Os conteúdos estão disponíveis e são um ponto de partida para quebrar as barreiras de um ensino unidirecional, isolado das comunidades e fechado em salas de aulas.

Os incêndios florestais colocam problemas complexos, cuja resposta requer, por sua vez, soluções altamente dependentes de cada contexto. É por isso que, focar a educação sobre o risco de incêndios florestais a partir de modelos padronizados, nos quais os estudantes são simplesmente recetores passivos, implica perder oportunidades:

– A oportunidade de contribuir para o desenvolvimento de soluções adaptadas às necessidades locais.

– E a oportunidade de contar com a participação ativa das gerações mais jovens.

Estes dois “ingredientes” foram identificados, pela investigação, como fundamentais para promover a resiliência comunitária face aos riscos climáticos.

Com o objetivo de os integrar, o projeto Edufire Toolkit (financiado pelo programa Erasmus+) desenvolveu uma proposta educativa para estudantes entre os 12 e os 16 anos, dirigida às temáticas dos incêndios florestais e alterações climáticas. A ideia é aproveitar as duas oportunidades e promover esta mudança, com base no modelo de Aprendizagem Baseada em Projetos.

A Aprendizagem Baseada em Projetos é uma variante de metodologias ativas de aprendizagem caracterizadas por uma orientação para o desenvolvimento de competências de investigação. Recuperando uma conceção mais natural de aprendizagem, assume que aprendemos durante todo o tempo e em todos os lugares, e principalmente em interação e cooperação.

Na Aprendizagem Baseada em Projetos pretende-se abrir as salas de aula e as escolas e transformá-las em espaços muito mais porosos com a sua envolvente e comunidade, pois aí poderemos encontrar situações, necessidades e problemas reais que têm perfil para se tornarem numa fonte ideal de aprendizagem para os estudantes.

Projeto EduFire - Aprendizagem Baseada em Projetos

Para isso, teremos de desenhar um processo de investigação que possa retornar sob a forma de soluções, ideias ou propostas para as problemáticas das comunidades e da sua envolvente. Neste sentido, a Aprendizagem Baseada em Projetos também incentiva o pensamento crítico e criativo, as capacidades de resolução de problemas e o compromisso com o ambiente e a comunidade dos estudantes.

Como se concretiza a metodologia de Aprendizagem Baseada em Projetos?

Para obter estes resultados é necessário preparação e planeamento prévio das equipas docentes.

  1. O ponto de partida é definir um desafio inicial ou pergunta guia para ativar o processo de pesquisa. Este desafio deve estar ligado aos objetivos curriculares ou de aprendizagem e a um problema da vida real.
  2. A seguir, propomos aos estudantes uma autoavaliação inicial que os ajude a identificar o que já sabem sobre o tema e o que precisam saber. Isto irá orientá-los no seu processo inicial de documentação, para o qual lhes forneceremos alguns materiais com informações e conhecimentos básicos sobre o assunto, juntamente com orientações e outras fontes fiáveis ​​de informação, com as quais poderão continuar a investigar e a aprofundar de forma autónoma.
  3. A partir desta base e tendo objetivos claros a atingir, estabeleceremos um roteiro de tarefas a seguir, no qual idealmente irão trabalhar em pequenos grupos. As tarefas podem ser distribuídas igualmente entre os diferentes grupos, ou distribuídas de forma complementar a cada grupo, para gerar um espaço de partilha e contribuir para um resultado global. É aconselhável garantir que estas tarefas: (i) estão orientadas para a resolução do desafio; (ii) são concretas e avaliáveis ​​em relação aos objetivos de aprendizagem; (iii) se baseiam no processo inicial de documentação/investigação.
  4. O percurso será orientado para o desenvolvimento de um produto final que sintetize a resolução ou resposta ao desafio e que seja elaborado num formato atrativo para partilhar com o público (apresentação, vídeo, exposição, peça de teatro, etc.).
  5. O ponto final será a avaliação, tanto pela equipa docente como a autoavaliação pelos próprios estudantes, tendo em conta quer o processo de aprendizagem e o trabalho em equipa como os resultados obtidos.

Promover o envolvimento em todas as etapas

Toda esta metodologia é aplicável sem necessidade de sair da sala de aula e envolvendo apenas professores e estudantes. Contudo, para preservar a sua essência comunitária e transformadora, devemos incluir o ambiente e a comunidade em todo o processo ou, pelo menos, em algumas das suas etapas. Assim, por exemplo:

  1. O desafio inicial pode ser proposto por um ator comunitário (entidade social, Câmara Municipal, etc.) para garantir que responde a um problema real da vida quotidiana que necessita de soluções. Sem perder de vista a vontade de devolver um retorno útil à comunidade, a equipa docente deve trabalhar para integrá-lo nos seus objetivos de aprendizagem e torná-lo adequado à idade dos estudantes com quem trabalha.
  2. O envolvimento com o contexto ou ambiente pode também desempenhar um papel fundamental no processo de documentação e pesquisa. A sua implementação pode ser diversa, dependendo do tema que investigamos: organização de visitas de campo/guiadas, realização de entrevistas com atores-chave, pesquisa num arquivo municipal são apenas alguns exemplos.
  3. No desenvolvimento das diferentes tarefas de resolução do desafio, os alunos devem ter protagonismo, para garantir que preservamos a sua criatividade e ideias, bem como para avaliar corretamente se sabem aplicar as aprendizagens adquiridas nas fases anteriores. No entanto, para reforçar a viabilidade e eficácia das suas propostas, podem ser convidados especialistas para as salas de aula, para atuarem como assessores dos estudantes, ajudando-os a aperfeiçoar as suas propostas iniciais e gerando uma dinâmica de aprendizagem mútua.
  4. Para devolver os resultados da pesquisa à comunidade será importante a realização de um evento público para apresentação dos produtos finais, num formato e horário acessíveis. Pode realizar-se como uma atividade escolar em formato de portas abertas ou como um evento a decorrer num equipamento municipal, ao qual os alunos se desloquem e os cidadãos sejam convidados a assistir.
  5. Por fim, no momento da avaliação, será importante tentar mensurar o impacte na comunidade. Muitos resultados não serão visíveis de imediato, pelo que seria interessante planear uma avaliação de impacte ao longo de um período mais dilatado.

Edufire Toolkit: conteúdos interdisciplinares e de acesso aberto

Para facilitar a concretização de propostas de Aprendizagem Baseada em Projetos ligadas à questão dos incêndios florestais, o projeto Edufire Toolkit desenvolveu um conjunto de 31 desafios que podem servir de ponto de partida.

Ajudadas pelo “Guia do professor”, as equipas docentes podem adaptar estas propostas iniciais às suas realidades e necessidades específicas, para as quais também dispõem de “9 Unidadesque oferecem conhecimentos básicos, atualizados e cientificamente comprovados sobre o tema dos incêndios florestais, bem como uma “Guia para participação comunitária” sobre esta temática.

Além disso, o site do projeto conta com uma plataforma interativa, desenvolvida para que os alunos se familiarizem com o tema, por meio de pequenas atividades online. Esta plataforma pode ser utilizada como parte do processo de documentação inicial. Todo este conteúdo é de acesso aberto e está disponível em quatro idiomas (português, espanhol, catalão e inglês).

Embora algumas destas atividades possam ser realizadas individualmente por um professor, elas são mais interessantes se forem feitas de forma colaborativa, com uma equipa docente interdisciplinar. De facto, o Edufire é inspirado nas abordagens STEAM que visam quebrar as barreiras tradicionais entre matérias e disciplinas, ligando as diferentes ciências com as tecnologias da informação e comunicação, bem como com as artes, humanidades e ciências sociais.

A interdisciplinaridade e complexidade dos problemas associados aos incêndios florestais exigem esta diversidade de olhares e abordagens, o que, por sua vez, torna as propostas educativas mais inclusivas, ao permitir ligações com os múltiplos interesses e sensibilidades dos estudantes.

Algumas destas ideias oferecidas pelo Edufire Toolkit já foram adaptadas e implementadas em centros educativos de Portugal e da Catalunha. Esperamos que novas estruturas educativas se juntem para transformar a educação sobre incêndios florestais no contexto europeu e que partilhem a sua experiência no mapa disponível no site do projeto.

Agosto de 2025

O Autor

Míriam Arenas Conejo é professora de Estudos de Psicologia e Ciências da Educação na Universitat Oberta de Catalunya e investigadora no projeto Edufire Toolkit. A sua atividade de investigação centra-se no estudo das dimensões sociais que moldam as relações de cura (que promovem o bem-estar emocional e psicológico) nas sociedades contemporâneas, na sociologia, nas teorias feministas e nos estudos sobre deficiência.

Tem especial interesse nas formas de ativismo e nos movimentos sociais que visam transformar essas relações e redefinir ou ampliar o conceito de cuidado, e dedica-se também à análise dos mecanismos que podem favorecer a proteção contra situações de vulnerabilidade, através de dinâmicas de participação social e política.

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