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Carlos Vila-Viçosa

O restauro do carvalho-de-monchique: quando academia, empresas e território trabalham em conjunto

Durante muitos anos, o carvalho-de-monchique foi, para a maioria dos portugueses, apenas mais uma árvore rara, escondida nas serras húmidas do sudoeste ibérico. Hoje sabemos que é muito mais do que isso: trata-se de uma das árvores mais ameaçadas da flora portuguesa e de uma verdadeira relíquia biogeográfica associada às florestas maduras e húmidas do sudoeste de Portugal. Estes ecossistemas únicos concentram, aliás, algumas das espécies mais raras e vulneráveis do país.

A minha ligação aos habitats do sudoeste português, onde o carvalho-de-monchique (Quercus canariensis Willd.) encontrou refúgio, começou muito antes do projeto “Melhoramento genético, produção e conservação de materiais florestais de reprodução” e da sua actual componente genómica.

Enquanto jovem botânico e geobotânico, sempre fui fascinado pela extraordinária diversidade biológica da Serra de Monchique e das montanhas húmidas do sudoeste português. Ali sobrevivem comunidades vegetais relictas (agora isoladas, mas outrora amplamente distribuídas), associadas a nevoeiros, linhas de água e encostas sombrias, onde coexistem espécies protegidas pela Rede Natura 2000, habitats prioritários europeus e numerosas plantas consideradas ameaçadas pela Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal.

Foi precisamente nesse território que começou também uma colaboração particularmente virtuosa entre academia, empresas e entidades locais. Uma colaboração demonstrativa de que a conservação da biodiversidade não pode continuar isolada dentro da universidade ou exclusivamente dependente do Estado. Pelo contrário: os grandes desafios ecológicos exigem modelos cooperativos, tecnicamente robustos e territorialmente integrados.

No caso do carvalho-de-monchique, essa colaboração permitiu-nos passar da observação naturalista clássica para uma abordagem científica multidisciplinar de ponta. Hoje trabalhamos com sequenciação de genomas completos (Whole Genome Sequencing), análise espacial, modelação ecológica, detecção remota, cartografia ecológica de alta resolução e horticultura especializada aplicada à conservação.

Pela primeira vez em Portugal, estamos a aplicar ferramentas de genómica de conservação a uma árvore nativa ameaçada, conseguindo identificar indivíduos geneticamente mais “puros”, compreender padrões de hibridação com espécies próximas, como o carvalho-cerquinho, e seleccionar populações prioritárias para conservação e restauro ecológico do carvalho-de-monchique.

Ao mesmo tempo, os levantamentos aéreos e a modelação ecológica permitem-nos avaliar o estado de conservação dos habitats, a estrutura da vegetação e o impacto de perturbações como incêndios, espécies invasoras ou fragmentação florestal. Estes dados ajudam-nos a definir, com maior precisão, onde restaurar populações, reforçar corredores ecológicos e aumentar a probabilidade de sucesso das futuras acções de conservação.

Proteção e restauro do carvalho-de-monchique: mais do que salvar uma espécie

© Carlos Vila-Viçosa

Ação articulada em prol de habitats de elevado valor

Mas talvez o aspecto mais relevante deste projecto seja precisamente a forma como diferentes sectores se complementam.

A Academia traz conhecimento científico, capacidade analítica e inovação tecnológica. As empresas trazem escala, capacidade operacional, infraestruturas e uma visão de longo prazo para o território. Os municípios, proprietários e entidades públicas ajudam a integrar estas acções na realidade local e no ordenamento do território. E organismos como o ICNF ou a Rede Natura 2000 poderão vir a enquadrar juridicamente estas acções de conservação.

O trabalho desenvolvido entre o Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), o Jardim Botânico do Porto, os viveiros da Espirra, da The Navigator Company, e o Instituto de Investigação da Floresta e Papel – RAIZ demonstra como a horticultura especializada e a multiplicação vegetal de espécies podem desempenhar um papel central na conservação da biodiversidade. Estamos actualmente a multiplicar plantas provenientes de genótipos seleccionados de carvalho-de-monchique, amieiros-portugueses (Alnus lusitanica) e samoucos (Morella faya, sinónimo de Myrica faya), testando germinação, enxertia, propagação vegetativa e futuras soluções de restauro ecológico em larga escala.

Mas esta colaboração vai muito além da componente laboratorial ou viveirista. Em várias propriedades florestais existe já uma gestão activa do território orientada para a conservação, que inclui controlo manual de matos, redução de combustíveis e gestão diferenciada da vegetação, procurando simultaneamente reduzir o risco de incêndio e favorecer habitats naturais de elevado valor ecológico.

Em particular, estas acções contribuem para a preservação de medronhais e matagais mediterrânicos associados ao habitat 5330 da Rede Natura 2000, mas também para a recuperação de bosques maduros de sobreiro e carvalhos, nomeadamente para os habitats 9330 e 9240, onde o carvalho-de-monchique encontra alguns dos seus últimos refúgios em Portugal.

Proteção e restauro do carvalho-de-monchique: mais do que salvar uma árvore

Mais do que plantar árvores, estamos a tentar recuperar processos ecológicos, conservar património genético raro e restaurar habitats maduros extremamente ameaçados no sudoeste português.

Num país frequentemente marcado pela fragmentação institucional e pela dificuldade em criar pontes entre ciência e aplicação prática, este tipo de projecto mostra que outro caminho é possível. Um caminho onde a conservação da natureza deixa de ser apenas reactiva e passa a ser planeada, tecnicamente sustentada e partilhada entre diferentes actores da sociedade.

Na minha opinião, é precisamente este o futuro da conservação da biodiversidade em Portugal: ciência de excelência ligada ao território, empresas comprometidas com sustentabilidade real e instituições públicas capazes de articular esforços em torno de objectivos comuns.

Porque proteger espécies raras como o carvalho-de-monchique não é apenas salvar uma árvore. É preservar paisagens inteiras, memória ecológica, diversidade genética e parte da própria identidade natural do sudoeste ibérico.

Junho de 2026

O Autor

Carlos Vila-Viçosa é geobotânico, investigador do BIOPOLIS-CIBIO, Universidade do Porto, e professor convidado no Departamento de Biologia desta mesma instituição. Ao longo da sua carreira, tem dedicado especial atenção às florestas nativas portuguesas, em particular aos carvalhais e aos habitats raros do sudoeste ibérico, onde desenvolve investigação nas áreas da ecologia, biogeografia, sistemática e conservação da biodiversidade.

Desde 2024, coordena o grupo BEPE – Biogeography and Evolution of Plants and Ecosystems e participa em vários projetos que combinam ciência fundamental e aplicada, recorrendo a ferramentas como genómica, modelação ecológica, deteção remota e restauro ecológico para apoiar a conservação de espécies e habitats ameaçados em Portugal.

Nota: o autor escreve segundo as normas anteriores ao Acordo Ortográfico de 1990.

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