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Espécies Protegidas

Gato-bravo: uma espécie “Em Perigo” e ainda sem proteção

O gato-bravo é um dos quatro mamíferos das florestas portuguesas “Em Perigo” de extinção – o mesmo nível de risco que têm o lince-ibérico, o lobo-ibérico e o toirão. Descubra o que importa saber sobre este felino silvestre, que ainda não conta com programas de proteção e tem vindo a tornar-se raro em vários territórios onde é nativo, como a Península Ibérica.

No início do século XXI, o gato-bravo (Felis silvestris) era considerado uma espécie “Vulnerável” em Portugal, mas desde 2023 que este mamífero de aspeto semelhante aos gatos domésticos passou a constar dos mamíferos “Em Perigo” de extinção.

A sua distribuição reduzida, descontínua e fragmentada no nosso país contribuiu para que a avaliação feita pelo “Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental”, em 2023, o tenha colocado na segunda categoria de risco de extinção mais preocupante (a primeira é “Criticamente em Perigo”), de acordo com a escala da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). 

Embora o tamanho da população de gato-bravo seja desconhecido em Portugal, estima-se que a espécie ocupe uma área inferior a 500 quilómetros quadrados e esteja separada em núcleos isolados, onde os indivíduos maduros (nos quais se incluem os reprodutores) podem não ultrapassar uma centena.

Norte de Portugal e interior do Alentejo são as zonas com mais núcleos populacionais confirmados, embora outros, muito dispersos, estejam identificados pelo centro e norte do país. 

Gato-bravo: uma espécie “Em Perigo” e ainda sem proteção
Gato-bravo: uma espécie “Em Perigo” e ainda sem proteção

Entre as ameaças, as avaliações que têm sido efetuadas destacam a redução e degradação dos habitats destes felinos silvestres, mas também os efeitos do cruzamento (hibridação) com os gatos domésticos (Felis catus), do qual nascem crias férteis. Este cruzamento, resultante do abandono de gatos domésticos em zonas rurais, é reportado há várias décadas como uma das causas da diminuição da integridade genética do gato-bravo e, em paralelo, promove a disseminação de doenças da espécie domesticada para a selvagem.

A redução das populações de coelhos-bravos em Portugal – que são importantes presas para os quatro mamíferos “Em Perigo” –, é outro dos fatores considerados.

O gato-bravo é uma espécie  integrada na Diretiva Habitats (preservação dos habitats naturais, da fauna e flora selvagens), na Convenção de Berna (vida selvagem e habitats naturais na Europa) e na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Selvagens (CITES). Apesar destes estatutos e do risco de extinção ter aumentado para “Em Perigo” em 2023, não existem em Portugal programas específicos de proteção da espécie.

A urgência de conhecer e conservar o gato-bravo

A Sociedade Ibérica para a Conservação e Estudo dos Mamíferos (SECEM) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) alertaram, em janeiro de 2026, para o preocupante estado de conservação da população ibérica de gato-bravo e, entre as medidas a tomar, identificam:

  • a implementação de projetos de monitorização e aprofundamento da situação da espécie a nível local, regional e nacional;
  • a urgência no desenvolvimento de um Plano Nacional de conservação da espécie (no contexto de uma estratégia ibérica conjunta);
  • o planeamento de um programa de conservação ex situ (em cativeiro), que complemente as ações no terreno e salvaguarde o património genético da espécie.
Gato-bravo: uma espécie “Em Perigo” e ainda sem proteção

Fonte: Manifesto sobre a preocupante situação de conservação do gato-bravo na Península Ibérica, SECEM – ICNF, janeiro de 2026.

Em Espanha, o gato-bravo está classificado como “Vulnerável”. Contudo, tal como em Portugal, falta informação robusta sobre a evolução e as tendências das populações. Acresce que, em ambos os países, a última avaliação no contexto da Diretiva Habitats também considerou o estado de conservação como “Desfavorável – Mau”, tendo em conta fatores como qualidade do habitat, população e extensão da ocorrência da espécie.

Refira-se que o gato-bravo presente em Portugal é natural da grande maioria do território do “velho continente”, até ao Cáucaso. Contudo, a sua presença terá começado a diminuir há pelo menos dois séculos, quando estes animais começaram a ser dizimados por serem vistos como concorrentes dos caçadores e uma ameaça aos animais de capoeira.

Classificada como ”Vulnerável” a nível europeu, pela Lista Vermelha da UICN, a espécie apresenta tendências distintas consoante as zonas da Europa – população a aumentar em Itália, estável na Bulgária e a regredir na Península Ibérica, por exemplo. Ainda assim, faltam dados para fazer uma avaliação mais rigorosa sobre as tendências destas populações, alerta a própria UICN.

Um contributo para a preservação genética do gato-bravo passa por não abandonar gatos domésticos, que podem cruzar-se com os selvagens. Outros contributos relacionam-se com a preservação e restauro dos habitats onde este gato silvestre vive e se reproduz, nomeadamente áreas de florestas e matos mediterrânicos, próximas de cursos de água e com presença de zonas rochosas.

Como se distingue do gato doméstico?

Apesar de terem bastantes semelhanças com os gatos domésticos listados, os gatos-bravos são tipicamente mais encorpados: os machos podem ter cerca de um metro de comprimento (desde a cabeça até à ponta da cauda) e pesar cerca de cinco quilogramas. As fêmeas são ligeiramente mais pequenas e mais leves.

A cabeça é larga, o focinho arredondado e os olhos são grandes e esverdeados. A pelagem é densa, cinzenta-acastanhada ou amarelada, percorrida com listas mais escuras (nunca pintas). A cauda é volumosa, com três a cinco anéis pretos e termina numa ponta arredondada, também preta.

O comportamento é outro fator de diferenciação: o gato-bravo é um animal selvagem, que prefere o isolamento e evita o contacto humano.

Gato-bravo: uma espécie “Em Perigo” e ainda sem proteção

Normalmente, estes gatos só saem das zonas abrigadas de florestas e matos (para zonas mais abertas) para caçar e é durante estas deslocações que alguns animais acabam por morrer, tanto atropelados como envenenados. Estas são outras duas causas identificadas para a redução do número destes animais.

A esperança de vida dos gatos-bravos é significativamente mais curta do que a dos domésticos – cerca de 11 anos.

As fêmeas de gato-bravo têm normalmente uma única ninhada por ano, com até quatro crias, que nascem durante primavera, após uma gestação de cerca de 65 dias. Os gatinhos são amamentados nos primeiros dois a três meses de vida e mantêm-se com a mãe durante o verão. Nesta época, começam a acompanhá-la na caça e a ganhar autonomia. Os machos não dão apoio às crias.

Sabia que o gato-bravo…

  • Também é conhecido em Portugal como gato-selvagem e gato-cabeçanas. Este último nome está relacionado com a sua cabeça larga e pescoço robusto.
Gato-bravo: uma espécie “Em Perigo” e ainda sem proteção
  • Tem orelhas que rodam rapidamente – e independentemente uma da outra – para identificar a origem de sons que o ouvido humano não consegue detetar. Podem responder a frequências até 25 mil hertz (ou seja, 25 mil vibrações por segundo). Esta capacidade permite-lhes captar sons ultrassónicos, como alguns que são feitos por pequenos roedores, localizando-os e capturando-os mesmo sem os verem.
  • Tem bigodes altamente sensíveis, que usa para determinar se consegue passar por pequenos espaços e para detetar movimentos das presas.
  • Está mais ativo ao amanhecer e anoitecer. É habitualmente nestes períodos que percorre grandes distâncias à procura de alimento. Este felino tem uma dieta, sobretudo, à base de carne: ratos, coelhos, aves, lagartixas e outras pequenas presas. Além de caçar também é caçado: as crias são vulneráveis a aves de grande porte e mesmo os adultos podem ser alimento para outros mamíferos, incluindo lobos e raposas.