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João Horta Marques

Depois da tempestade, a realidade, a necessidade e o ordenamento

Há grande obra a fazer em Portugal e foi por isso que, depois das enormes tempestades que nos assolaram em Portugal, entre 22 de Janeiro e 8 de Fevereiro de 2026, mas com os olhos postos no futuro, redigi este texto. Não se trata de uma simples teoria, em que a academia tem sido especialista, mas, infelizmente, desacreditada ou ignorada. Este texto procura ajudar e não criticar. Para criticar já temos oposição e demagogos que bastem.

Desde há muitos anos que se sabe: as apelidadas “Alterações Climáticas” originam fenómenos mais intensos e extremos, como secas e tempestades. As deste Inverno de 2026 foram as maiores tempestades do novo milénio em Portugal.

Analisando a história, constata-se que a década de 1940 possui algumas semelhanças com o sucedido na década de 2020. Nessa década, houve:

  • dois anos de seca extrema,
  • um ciclone arrasou o Algarve (a 15 de Fevereiro de 1941) e, como relatou Vieira Natividade, “derrubou em muitos casos os maiores e melhores sobreiros, as árvores mais frondosas e mais belas do montado”. Sobreiros com 50 a 60 anos foram derrubados por esta tempestade, que também danificou outras regiões, como as Matas Nacionais do Vimeiro.
  • nevou em Lisboa e, pior… o mundo estava em guerra e assim se manteve até 1945.

A década seguinte melhorou um pouco, apesar de ter nevado no Algarve, em Fevereiro de 1954, e de Junho ter sido um mês escaldante por influência de um vento suão.

Podemos recuar ainda mais, à década de 1870, em que as secas foram tão intensas que os sobreiros perderam as folhas e em que os grandes temporais de Dezembro de 1876 arruinaram as colheitas, mas sobretudo as infra-estruturas, como moinhos, celeiros e casas. Há 135 anos, o Inverno de 1890/91 foi tão seco e frio que impediu o crescimento das pastagens e a salvação do gado foram as desramações das oliveiras, azinheiras e sobreiros.

Não faltam também exemplos mais recentes, como o dos anos entre 2017 e 2024, em que Portugal vivenciou uma seca intensa e persistente. Faltava-nos um dilúvio e 2026 tinha as condições para a tempestade perfeita…

Joao Horta Marques

Para ser coerente e dar alguma esperança, vale a pena referir que, a seguir às referidas secas de 1870 e às tempestades de 1876, houve anos de fartura nas principais culturas portuguesas (que à exceção dos cereais, então mais cultivados, e da horticultura irrisória, se mantêm na atualidade). Em 1884, por exemplo, a produção de vinho foi tal que, à falta de recipientes adequados para o seu armazenamento, um homem da Galiza encheu tudo o que encontrou, incluindo baús e cântaros.

A “média” daria um clima perfeito. Pois bem, prezado leitor, a média é uma ilusão. Quase se pode dizer, neste caso, que a média não existe. Constitui um erro que, felizmente, não é cometido pelos engenheiros ao dimensionarem um projecto, seja ele em que domínio for, da engenharia civil à hidráulica e à silvicultura.

Dentro da irregularidade característica do clima mediterrânico, como dizia Ário de Lobo Azevedo, existem em Portugal anos climáticos para todos os gostos, mas as vivências dos nossos antepassados originaram o ditado “Depois da tempestade vem a bonança.”

Conhecimento, vontade e acção metódica

A única forma de evitar este círculo vicioso de catástrofes é a acção metódica de ordenamento do território com gestão adaptativa, o que exige elevadíssimo planeamento (mas não ao ponto de se ficar preso e não avançar), mão-de-obra e tecnologia para executar. Ah, e claro, dinheiro – embora enquanto ele não chega, a vontade nos permita, até certo nível, improvisar.

O conhecimento adquirido nas últimas décadas permite direccionar o ordenamento e, paralelamente, seguir mais caminhos de investigação, que contribuam para a evolução da humanidade, minimizando os efeitos ambientais, de modo a favorecer as externalidades positivas.

Embora este seja um problema sério, acredito convictamente que as novas gerações serão uma mais-valia, dada a sua afinidade com as novas tecnologias. Acredito também, com a mesma convicção, que a implementação destas soluções sustentadas pelo conhecimento permitirá aumentar a qualidade de vida. E há muitos pequenos passos que podem contribuir.

Um exemplo é a colocação de painéis solares no topo das encostas, em zonas de solos mais degradados, sobretudo com orientação a Sul, instalando idealmente uma cultura sob os painéis. Esta solução está a ser estudada no Instituto Superior de Agronomia (ISA), para compreender a influência dos painéis sobre a vinha.

A apicultura e as plantas aromáticas e medicinais também apresentam potencial. Embora fora da minha área de investigação, pelo que tenho aprofundado, estou convicto de que o mel que produzimos em Portugal tem a melhor qualidade nutricional do mundo. Isto acontece pelo nosso contexto edafoclimático (condições de clima e solo), que promove uma vegetação diversa, com várias espécies de plantas aromáticas e medicinais – do alecrim, lavândulas, tomilhos, hortelãs e salva aos medronheiros, loureiros e freixos.

Vinha sob painéis solares ISA

Estas espécies servem de alimento às abelhas e devem ser geridas de modo a assegurá-lo todo o ano, mas sem incrementarem o risco de incêndio. E a gestão das colmeias pode ser compatível com a resinagem – dois tipos de operações que podem ajudar a manter a floresta gerida. Numa visão ideal, podem até ajudar a detectar e controlar incêndios. Um exemplo deste tipo de iniciativas foi o projecto “Resineiro Vigilante” do ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.

A apicultura em Portugal tem de ser promovida e crescer por todas as razões em que possamos pensar. Infelizmente, o seu ensino (bem como o das plantas aromáticas e medicinais) tem sido abandonado nas universidades portuguesas – um erro lamentável que deve ser revertido, considerando a aptidão de Portugal para esta actividade. E quando se fala em apicultura, têm de se abordar todos os seus aspectos, nomeadamente as pragas e doenças, como a vespa asiática, que tem devastado milhões de colmeias. Também aqui há muito trabalho a fazer.

A arborização é outra vertente a considerar, mas é um contrassenso efectuá-la se não houver capacidade para a gerir, sobretudo nos primeiros anos.

Há pouco mais de um século, quando poucos perspectivavam um aumento da temperatura média terrestre, a importância da gestão já era considerada e os seus conhecimentos implementados nas acções de arborização. Agora, com todos os desafios e estudos que temos, é muitas vezes esquecida. Muitas árvores são plantadas, por vezes por voluntários, e deixadas à sua sorte… São poucas as que conseguem resistir à secura do primeiro ano e as que singram depois das primeiras chuvadas, que as deixam com as raízes expostas e sem o solo que as devia cobrir.

Antigamente, as árvores plantadas ou semeadas eram cobertas e monitorizadas durante vários anos. Por exemplo, nas sementeiras, eram empregues adubo e mato seco para fazer esta cobertura.

Nas areias eram semeadas misturas de diferentes espécies, incluindo leguminosas, para melhorar a fertilidade do solo. E as espécies escolhidas estavam bem-adaptadas às condições dos locais – por exemplo, a luzerna-das-areias (Medicago marina) nos areais.

No passado, uma grande extensão no interior também foi rapidamente arborizada e para a apoiar foram criados viveiros de arbóreas que, além de bem-adaptadas às regiões em causa, eram economicamente viáveis.

Portugal tem de saber aproveitar estes velhos conhecimentos e juntá-los com os mais recentes para se preparar tanto para anos de tempestades, como os 2025/26, como para os de seca, como os que se viveram em 2021/22 e 2022/23, criando infra-estruturas que permitam armazenar os excessos para usar em alturas de carência.

As barragens podem ser uma opção. Por atenuarem a amplitude térmica são indirectamente uma medida de contingência para as alterações climáticas que promove o bem-estar humano e animal. E podem ainda permitir a criação de praias fluviais que contribuem para a qualidade de vida.

Claro que a construção de barragens não é inócua para o ambiente, mas se é necessária à “acção climática” – que também tem por objectivo proteger as espécies –, então pode beneficiar o ambiente noutros aspectos tão ou mais importantes.

Termino com uma mensagem de força que espero conseguir transmitir a todos os que fazem Portugal avançar – uma frase que nos foi deixada por Moraes Soares, em 1876:

“Havemos de prosseguir nesta proclamação enquanto nos restar um alento na vida”.

Abril de 2026

O Autor

Licenciado em Agronomia na Universidade de Évora (UÉvora), João Horta Marques concluiu os mestrados de Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa e de Tecnologias em Agricultura de Precisão na UÉvora e Universidade Nova de Lisboa.

Agricultor e produtor florestal, é colaborador do MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento da UÉvora e bolseiro do Centro de Estudos Florestais (CEF, ISA). Os seus interesses abrangem a fertilidade do solo e as culturas mediterrânicas (sobreiro, medronheiro, pastagens e leguminosas) e, em paralelo, a história agrícola e florestal. Em 2024 foi premiado com Prémio “Compromiso Medioambiental” no Congresso Ibérico de “Investigación en Juventud”.

Nota: o autor escreve segundo as normas anteriores ao Acordo Ortográfico de 1990.

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