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Susana Brígido

Engenharia Florestal em Portugal: renovação e representatividade

Aumentar a representatividade institucional, promover a renovação geracional e apostar numa capacitação técnica contínua, que privilegie a vertente prática e aborde as grandes agendas de mudança. Estas são três prioridades para reforçar a atratividade da Engenharia Florestal em Portugal e garantir que a profissão tem o peso correspondente à importância que desempenha realmente na gestão sustentável de um território com futuro.

A Engenharia Florestal em Portugal assume hoje uma relevância que ultrapassa a gestão florestal em sentido estrito. O seu papel é estrutural na resposta a alguns dos principais desafios do território nacional: das alterações climáticas à gestão integrada da paisagem, passando pela prevenção de incêndios rurais e pelo restauro ecológico.

A sua relevância técnica contrasta, no entanto, com uma limitada representatividade institucional, uma renovação geracional insuficiente e uma capacidade de influência que fica aquém do papel que a floresta ocupa nas agendas climática, territorial e económica do país.

Na Ordem dos Engenheiros – Região Sul, num universo de cerca de 33 mil membros, apenas cerca de 1% pertence à especialidade de Engenharia Florestal. Esta percentagem é reveladora do défice significativo de massa crítica e de capacidade de influência nos processos de decisão. Este cenário é agravado por um perfil demográfico envelhecido, com uma média etária próxima dos 57 anos.

Mas os desafios da Engenharia Florestal em Portugal começam antes da entrada na profissão. A escassez de estudantes universitários é um sinal da falta de atratividade e reconhecimento. Os cursos existem, mas os estudantes não chegam: num ano recente, apenas 11 alunos ocuparam cerca de 60 vagas disponíveis.

Esta realidade despertou uma reflexão sobre a forma como a sociedade olha para a floresta, para os profissionais que dela cuidam e para o valor técnico de quem decide sobre a gestão sustentável do território. Foi neste contexto que, no primeiro semestre de 2026, no Grupo de Trabalho de Engenharia Florestal da Região Sul (GTEF_OERS), promovemos três iniciativas: um jantar-debate de Engenharia Florestal, o evento “SOS Incêndios” e um workshop sobre o RJAAR – Regime Jurídico das Ações de Arborização e Rearborização. Estas sessões reuniram mais de 150 participantes e permitiram realizar um inquérito, com cerca de 100 respostas válidas.

O objetivo foi ouvir a comunidade, conhecer as suas expectativas e identificar as iniciativas e temas técnicos que consideram prioritários para suportar a definição de futuras linhas estratégicas para a atividade deste Grupo de Trabalho.

Que caminho para afirmar a Engenharia Florestal em Portugal?

A evidência recolhida confirma que a Engenharia Florestal em Portugal tem uma comunidade técnica alinhada com os desafios do sector e interessada nos temas centrais que marcam a agenda política, mas está confrontada, simultaneamente, com limitações que importa ultrapassar ao nível da representatividade e da afirmação ou influência institucional.

Num contexto em que a floresta assume crescente centralidade nas agendas climática, territorial e económica, o reforço institucional da Engenharia Florestal é mais do que uma necessidade sectorial: é uma condição para a sustentabilidade e resiliência do território. A definição de estratégias informadas, sustentadas em evidência empírica e articuladas entre comunidade técnica e instituições, será determinante para assegurar esse caminho.

Com base nos resultados recolhidos, identificam-se tendências e prioridades que dão pistas para a atuação futura do Grupo de Trabalho de Engenharia Florestal da Região Sul:

Engenharia Florestal em Portugal: renovação e representatividade

– Ao encontro das prioridades e das expectativas dos engenheiros florestais inquiridos

A principal prioridade identificada é a necessidade de uma representação institucional mais forte, em que a expectativa quanto ao papel da Ordem dos Engenheiros é a de reforço da sua atuação na área florestal. A promoção de formação contínua e o reforço da influência na definição de políticas públicas estão igualmente entre as prioridades identificadas.

A valorização social da Engenharia Florestal e a disseminação de informação técnica atualizada surgem igualmente como dimensões críticas, evidenciando a necessidade de reforçar a visibilidade e o reconhecimento da profissão.

– Abordar temas que constituem desafios nacionais e globais

No plano técnico, destaca-se de forma inequívoca a temática da gestão florestal adaptada às alterações climáticas, identificada por cerca de 64% dos participantes. Emergem também como áreas de elevada relevância a inteligência artificial aplicada à gestão florestal, a inovação e tecnologia, o ordenamento do território, a biodiversidade e os serviços dos ecossistemas.

As temáticas mais valorizadas indicam uma evolução do sector para abordagens mais integradas e tecnologicamente suportadas. Em paralelo, a diversidade de temas indicada –  incêndios rurais e sua prevenção, política e legislação florestal e mercados de carbono – reforça a natureza multidisciplinar da Engenharia Florestal, abrangendo dimensões técnicas, territoriais, económicas e regulatórias.

Estes resultados confirmam o alinhamento da comunidade com os principais desafios globais e nacionais, posicionando a adaptação climática como eixo estruturante da intervenção florestal.

– Encontrar formatos diversos, mas práticos, colaborativos e de atualização técnica

Os inquiridos revelam preferência por iniciativas de carácter prático, colaborativo e orientadas para a atualização técnica, com preferência por visitas técnicas (68%), debates temáticos com especialistas (66%), workshops (65%) e formação qualificante certificada (62%).

As respostas indicam a valorização de formatos que promovam o contacto direto com o território, a partilha de conhecimento entre pares e o desenvolvimento contínuo de competências, mas indicam também que a variedade de formatos é importante.

Três eixos prioritários de intervenção

A análise dos resultados permite identificar uma elevada coerência entre as prioridades expressas pelos inquiridos e os desafios estruturais do sector.

Por um lado, verifica-se uma clara orientação para o reforço da capacitação técnica, através de iniciativas que promovam aprendizagem aplicada e partilha de conhecimento. Por outro, observa-se um alinhamento com os principais vetores estratégicos da política florestal contemporânea, nomeadamente, a adaptação às alterações climáticas, a prevenção de incêndios e a incorporação de inovação tecnológica.

Paralelamente, existe uma perceção consistente sobre a insuficiente afirmação institucional da Engenharia Florestal em Portugal, traduzida na necessidade de reforçar a sua presença nos processos de decisão e no espaço público.

Neste sentido, definem-se três eixos prioritários de intervenção, que irão orientar a atuação do Grupo de Trabalho de Engenharia Florestal da Região Sul:

  1. Reforço da representatividade e da renovação geracional, através da promoção da profissão, do reforço da sua atratividade e da valorização da formação;
  2. Estruturação de uma oferta contínua de iniciativas técnicas, alinhadas com as preferências identificadas (visitas, debates, formação certificada);
  3. Afirmação institucional da Engenharia Florestal, reforçando a sua influência dentro da Ordem dos Engenheiros, no sentido de promover maior envolvimento nas políticas públicas e maior visibilidade junto da sociedade.

Adicionalmente, o Grupo de trabalho estará empenhado em contribuir para a integração efetiva de engenheiros florestais nos processos de decisão, no planeamento e intervenção no território, garantindo rigor técnico e responsabilidade profissional.

Agosto de 2026

O Autor

Susana Brígido é engenheira florestal e a fundadora e diretora-geral da 2BForest. Em 2026, é ainda vogal da Região Sul para o Colégio de Engenharia Florestal da Ordem dos Engenheiros. No Grupo Trabalho de Engenharia Florestal da Região Sul desta Ordem trabalha em conjunto com as também engenheiras florestais Joana Amaral Paulo, Sónia Martinho e Conceição Colaço, para valorizar e reconhecer a engenharia florestal enquanto profissão essencial ao desenvolvimento rural, à dinamização da economia, ao bem-estar das populações, à gestão sustentável da floresta portuguesa e à adaptação e mitigação das alterações climáticas.

Joana Amaral Paulo, professora do Instituto Superior de Agronomia (ISA) e investigadora do Centro de Estudos Florestais (CEF), centra-se nas áreas da modelação florestal, sistemas agroflorestais e gestão do montado, principalmente sobreiro e cortiça. Sónia Martinho, técnica superior da Câmara Municipal de Monchique, atua no planeamento do território, proteção e gestão da floresta, prevenção de incêndios rurais e valorização dos recursos locais. Conceição Colaço, investigadora no Centro de Ecologia Aplicada (CEABN) do ISA e Presidente da Direção do FSC Portugal, tem reconhecida experiência na área dos incêndios rurais, da gestão do risco e da adaptação das paisagens e comunidades aos incêndios.

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