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Susana C. Gaspar

“Entre as Árvores”: uma criação fora das paredes do teatro

Estar entre as árvores, sentir o movimento das suas folhas ao vento ou observar os feixes de luzes que atravessam as copas é proporcionar um olhar mais atento sobre este património vivo, sensibilizando a sociedade para os muitos papéis desempenhados pelas árvores e mobilizando-a para a sua valorização e preservação. É este o propósito da peça “Entre as Árvores” e de a apresentar fora das paredes do teatro.

As árvores e a biodiversidade da floresta têm uma ligação milenar com a vida humana. Se, por um lado, a natureza interfere na forma como compreendemos o mundo, também os seres humanos têm um grande impacto na paisagem natural, o que a transforma num território político. Por esta razão, estes seres têm sido alvo de cada vez mais representações, observações e estudos.

A investigação científica demonstra que uma floresta é muito mais do que um conjunto de árvores, embora vários aspetos permaneçam por esclarecer. As redes subterrâneas formadas pelas raízes e pelos fungos evidenciam uma forte interdependência entre os diferentes elementos do ecossistema. Apesar de o funcionamento destas ligações continuar sob investigação, existe um consenso quanto ao facto de a floresta constituir um sistema interligado que sustenta o equilíbrio ambiental.

Além disso, o valor de uma árvore ultrapassa largamente a sua dimensão paisagística. As árvores captam carbono, filtram poluentes, regulam a temperatura, protegem os solos e contribuem para a conservação da biodiversidade. Não é por acaso que o Plano de Intervenção para a Floresta 2025-2050 reconhece a floresta como um ativo estratégico para Portugal e defende uma gestão que concilie sustentabilidade ambiental, desenvolvimento económico e coesão territorial. Nas cidades, onde as ondas de calor são cada vez mais frequentes, a presença de árvores é uma questão de saúde pública, contribuindo para a criação de refúgios climáticos e de regiões mais saudáveis.

Com a crescente sensibilização, aumenta também a curiosidade por parte das pessoas, pois nem sempre se ensinam na escola as capacidades das árvores, ou nem sempre a linguagem científica é acessível o suficiente.

“Entre as Árvores” é mais do que representar a natureza

É precisamente por essa razão que acredito que o teatro “site-specific” pode oferecer uma perspetiva diferente, ainda pouco explorada pelo mundo artístico. Em vez de somente representar a natureza, dá-nos uma oportunidade de estar entre as árvores e de estimular vários sentidos, como a audição ou o tato.

Levar uma peça de teatro para a floresta é mais do que alterar o local tradicional de representação. Foi isto que fizemos com “Entre as Árvores”. A peça foi criada de raiz pela Companhia de Teatro de Sintra – Chão de Oliva e foi em Sintra que se estreou, em 2026. Pronta para despertar consciências em novos espaços florestais, aguarda por novas parcerias para continuar a promover a sensibilização, o cuidado e o fascínio pelas árvores.

“Entre as Árvores”: uma criação fora das paredes do teatro

Quando uma peça acontece fora das paredes de um teatro, reconhecemos que o território participa ativamente na criação artística e há características únicas que entram em palco, como os sons dos pássaros ou do vento a passar pelas ramagens, ou os feixes de luzes que atravessam as copas das árvores. Este envolvimento desafia a visão antropocêntrica que coloca o ser humano no centro de todas as relações. No coração da floresta, percebemos que existem ritmos e formas de vida distintas da nossa.

O processo de criação é, invariavelmente, diferente do de outros espetáculos. No caso de “Entre as Árvores”, criação da Companhia de Teatro de Sintra – Chão de Oliva, tivemos de compreender conceitos e processos sobre as árvores, para depois adaptar esse conhecimento de forma acessível para diferentes faixas etárias. Em vários momentos, deixámos que a paisagem despertasse a nossa imaginação, sem perder o rigor científico. Acreditamos que esse olhar distanciado, tal como a abordagem poética, pode ajudar a que outras pessoas percebam melhor alguns desses conceitos.

Acresce que esta forma de produção artística pode contribuir para uma maior consciência ecológica. A preservação da floresta não depende exclusivamente das políticas públicas, mas também da capacidade de cada pessoa, individualmente, tomar consciência das suas ações. Neste aspeto, a cultura tem um papel fundamental para sensibilizar e mobilizar a sociedade, e queremos que esta peça tenha precisamente esse efeito.

Levar uma peça de teatro para a floresta não significa somente alterar o local da representação. Significa também devolver-nos um olhar mais atento sobre este património vivo, ao reconhecer as árvores como protagonistas silenciosas do planeta que todos partilhamos. Mais do que apresentar um espetáculo diferente, queremos promover a sensibilização, o cuidado e o fascínio pelas árvores e pelas florestas. Após a vivência desta experiência artística, convidamos a olhar (ou voltar a olhar) para qualquer árvore de uma outra maneira.

Setembro de 2026

O Autor

Susana C. Gaspar é codiretora artística no Chão de Oliva – Centro de Difusão Cultural, onde também é atriz e encenadora. Desde 2016, leciona na Escola Superior de Educação de Lisboa.

Licenciada em Ciências da Cultura, mestre em Educação Artística – Teatro na Educação e Doutorada em Estudos Artísticos – Arte e Mediações, Susana C. Gaspar fez várias formações em Teatro e também Movimento.

Encenou o seu primeiro espetáculo em 2011, “Lampedusa”, sobre refugiados (vencedora Jovens Criadores 2012). A sua criação artística cruza, frequentemente, o teatro documental e os direitos humanos. Recentemente, encenou “Raizame”, teatro documental para público jovem sobre alterações climáticas, e “Entre as Árvores”, para todos os públicos.

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