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Espécies Florestais

As espécies de amoreira que chegaram a Portugal

Conhecidas pelas amoras e pelas folhas que alimentam bichos-da-seda, as amoreiras são árvores que vieram de fora e aqui se naturalizaram. Fique a conhecer as duas espécies que podemos encontrar em Portugal, neste artigo com a colaboração de Beatriz Parreira e Pedro Brás de Oliveira.

As amoras e as folhas que alimentam os bichos-da-seda tornaram a amoreira bastante conhecida em Portugal, mas estas árvores vieram de longe e pertencem a um conjunto de espécies que foram amplamente cultivadas em geografias distantes, tendo-se naturalizado fora da sua zona de origem.

De nome científico Morus, as amoreiras pertencem à família das moráceas (Moraceae), que inclui várias espécies conhecidas pela produção de frutos comestíveis, como a figueira (Ficus carica) que temos em Portugal e a fruta-pão ou árvore-do-pão (Artocarpus altilis) que é cultivada habitualmente nos trópicos.

As espécies desta família são habitualmente árvores ou arbustos lenhosos, de distribuição natural predominantemente tropical e subtropical. Contudo, algumas conseguem adaptar-se a outros climas e foram introduzidas nas regiões temperadas (principalmente nas temperadas mais quentes), não só pela utilização dos seus frutos, folhas e madeira, mas também com fins ornamentais.

As amoreiras possuem uma elevada diversidade genética e existem muitas espécies e variedades que podem crescer em diferentes climas, solos e condições ecológicas. A diversidade abrange também diferentes características morfológicas, bioquímicas e fisiológicas. Esta diversidade contribui para uma taxonomia complexa e a classificação do género Morus torna-se ainda mais complicada porque as espécies cruzam-se entre si com frequência (hibridizam) e muitos dos híbridos são férteis.

Amoreiras

As características das espécies Morus que temos em Portugal

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De acordo com a World Flora Online (WFO) Plant List, no início de 2026 existiam 20 espécies aceites cientificamente e outras 54 que não estão ainda integradas na classificação (a aguardar avaliação taxonómica ou evidências científicas adicionais para serem classificadas).

O número de variedades cultivadas é muito superior. Só na China existem mais de mil, na grande maioria originadas a partir de quatro espécies: a amoreira branca (Morus alba), a amoreira-de-Lu (Morus multicaulis), a amoreira-da-montanha (Morus bombycis) e a amoreira-de-Guangdong (Morus atropurpurea).

Em Portugal há duas espécies de amoreira: a amoreira-branca (Morus alba) e a amoreira-negra (Morus nigra). Crescem principalmente na margem de alguns rios no norte do país, como subespontâneas ou naturalizadas. Quer isto dizer que uma vez plantadas nestas zonas, conseguem propagar-se sem intervenção humana. O ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas classifica estas duas exóticas como espécies arbóreas florestais que podem plantar-se em Portugal.

De onde vem o nome Morus?

Pensa-se que o nome do género Morus derive do latim “mora”, que remete para demora, e esteja relacionado com o desenvolvimento tardio dos gomos (também chamados botões, que dão origem a novos ramos, folhas, flores ou frutos). Uma explicação alternativa sugere que o nome deriva do céltico “mor”, que significa preto, em alusão à cor das amoras pretas. Quanto aos epítetos específicos, “nigra” refere-se à cor dos referidos frutos, e “alba” à cor dos gomos (e não dos frutos, como seria esperado).

A amoreira-branca

A amoreira-branca (Morus alba) é natural da Ásia Central e Oriental, região que abrange a Índia, a China e o Japão. Mesmo nos países de onde é natural e por todo o Extremo Oriente é muito cultivada para alimentar as culturas de bichos-da-seda. Por esta mesma razão, foi plantada fora da sua zona natural e encontra-se presente em praticamente todo o sul da Europa.

Em Portugal, foi introduzida como espécie ornamental um pouco por todo território continental, mas o seu cultivo foi incentivado para apoiar a produção de seda, que teve vários altos e baixos ao longo da história: a sericicultura terá sido impulsionada em Trás-os-Montes, no século XIII, desenvolveu-se depois nas Beiras e beneficiou de várias vagas de fomento que a levaram, já nos séculos XVIII e XIX, a muitas outras regiões portuguesas – incluindo às cidades de Lisboa e Porto. A última legislação portuguesa de fomento sericícola data de 1930.

A amoreira-branca é uma espécie de crescimento rápido, que consegue desenvolver-se em áreas alteradas e até degradadas pela atividade humana (chamam-lhe, por isso, ruderal) e desenvolve-se melhor em solos de textura ligeira, tolerando mal os terrenos demasiado húmidos ou compactos. É intolerante à sombra, mas tem boa resistência ao vento, ao frio e à secura.

A copa arredondada desta amoreira pode alcançar 12 a 15 metros de altura. As suas folhas caducas dispõem-se alternadamente ao longo dos ramos (folhas alternas) e têm uma forma oval, embora com uma base mais larga e com um pequeno recuo central que lembra um coração (ovadas a cordiformes). As margens são dentadas.

As flores, que surgem entre março e abril, são unissexuais, pequenas e agrupadas em cachos compactos (amentilhos). De cor esverdeada, os amentilhos masculinos e femininos distinguem-se essencialmente pela dimensão: cerca de três centímetros nas flores masculinas e metade nas femininas.

As flores da amoreira-branca originam os frutos
Frutos da Morus-alba
Morus-alba

Ao longo do verão, os amentilhos femininos dão origem à amora. A especificidade deste fruto leva os botânicos a chamar-lhe uma infrutescência solitária, mais precisamente uma sorose, em que os frutos nascidos das várias flores do amentilho se reúnem num só corpo, agregando-se nesta infrutescência juntamente com o eixo que as une, que também se torna carnudo.

A amoreira-negra

A amoreira-negra ou amoreira-preta, também conhecida pelo nome “amoras-da-horta” – por ser encontrada tradicionalmente nestes locais – é originária do Norte do Irão, da Arménia, da Geórgia e do Azerbaijão. Foi cultivada desde a antiguidade pelos seus frutos comestíveis e encontra-se naturalizada na Ásia Ocidental, no Norte de África e na Europa de Leste e Mediterrânica.

Em Portugal, esta amoreira de grande longevidade foi introduzida e cultivada ainda antes da introdução da amoreira-branca. As árvores podem alcançar os 15 metros e as suas copas são amplas e difusas, de ramos compridos e torcidos.

Tal como a espécie anterior, a amoreira-negra é uma árvore de folha caduca, com folhas dispostas alternadamente, cuja forma lembra um coração ou uma oval, embora os seus contornos sejam mais regulares do que na amoreira-branca. O tom da folha é de um verde mais intenso e brilhante na página superior e mais claro na parte inferior.

Apesar das várias semelhanças, existem diferenças biológicas profundas entre as duas espécies: a amoreira-preta é muito mais difícil de propagar e cresce muito lentamente. Adicionalmente, esta é uma espécie ainda mais resistente a condições ambientais adversas, graças ao elevado teor de compostos fenólicos presentes em vários órgãos, que apoiam um robusto sistema de defesas naturais. Por esta boa capacidade de adaptação e resistência é considerada uma espécie rústica, sendo sugerida, por vezes, como uma opção para a arborização das areias litorais.

As flores da Morus nigra
As amoras da amoreira-negra
Amoreira-negra: uma das espécies Morus cultivada Portugal

As flores, de cor verde-clara a ligeiramente rosada, despontam entre março e abril, em amentilhos densos. Os frutos comestíveis também são soroses, mas o seu sabor é ligeiramente mais doce do que o das amoras brancas. Estas amoras surgem entre agosto e setembro, tornando-se vermelho-escuras, quase negras, quando amadurecem. Uma das limitações do uso ornamental desta espécie é o facto de os frutos caírem (quando ficam muito maduros) e mancharem os pavimentos.

Sabia que a amoreira…

–  Foi protegida por lei em Portugal em 1930

Nesse ano, foi publicado o Decreto n.º 18604, de proteção à indústria sericícola (de produção de seda com base nos bichos-da-seda) e à cultura da amoreira. A lei instituiu, entre outras medidas, a plantação de campos de amoreira e a proibição do corte, arranque, transplantação ou destruição destas árvores sem autorização, definindo multas para quem o faça.

–  Tem uma árvore classificada no Fundão

A amoreira-negra de Atalaia do Campo está classificada como Arvoredo de Interesse Público (Despacho AIP05043567I) dado o seu valor histórico e cultural. Supostamente, serviu como local de emboscada do Regimento de Cavalaria 1, de Castelo Branco, às tropas francesas do general Junot, na invasão napoleónica. Além disso, até aos finais da década de 1970, o correio da aldeia era entregue sob a copa desta árvore.

– Dá nome, em Lisboa, a uma zona relacionada com a produção de seda

A fábrica de sedas, em Lisboa, teve as suas primeiras instalações na Fonte Santa, estabelecendo-se depois na Rua de São Bento e, finalmente, no Largo do Rato. Esta última unidade foi designada como Real Fábrica das Sedas do Rato e sua presença ficou registada na toponímia da zona, nomeadamente na Praça das Amoreiras e na Rua da Fábrica das Sedas. Na altura, foram ali plantadas muitas amoreiras para alimentar a produção. Várias ainda se encontram naquela zona da capital.

– Foi uma das espécies que serviu de inspiração a Vincent van Gogh

“Amoreira” é o nome de uma pintura a óleo de Vincent van Gogh, criada em outubro de 1889, quando se retirou para Saint-Rémy-de-Provence, França. Entre as muitas espécies pintadas por van Gogh, esta apresenta uma amoreira solitária, no outono, com a sua folhagem ondulante e alaranjada a contrastar com o céu azul.

A amoreira de Van Gogh

Wikimedia Commons

– Tem numa lenda de amor a justificação da cor das amoras

Num escrito do poeta romano da Antiguidade, Ovídio, o vermelho das amoras deve-se a uma trágica história de amor, semelhante à de Romeu e Julieta. Conta a lenda que Píramo e Tisbe, dois jovens babilónios, estavam apaixonados, mas a sua união não era aprovada pela família. Certo dia, marcaram um encontro junto a uma fonte onde existia uma amoreira. Tisbe chegou primeiro, mas foi surpreendida por uma leoa que ali foi beber água e escondeu-se numa gruta próxima. Ao fugir, deixou cair o véu, que a leoa abocanhou e sujou com sangue do seu focinho. Quando Píramo chegou, encontrou o véu rasgado e ensanguentado, concluindo que a sua amada fora morta pela leoa. Em desespero, matou-se sob a árvore. Quando Tisbe regressa e encontra Píramo moribundo, decide matar-se com a mesma espada. Diz-se que o sangue dos jovens coloriu de vermelho os frutos da amoreira-branca.

* Em colaboração com Beatriz Parreira e Pedro Brás de Oliveira

Beatriz Parreira é licenciada em Meteorologia, Oceanografia e Clima pela Universidade de Aveiro. Em 2026 está a concluir a tese do Mestrado em Avaliação e Gestão Ambiental na Universidade de Aveiro e na Universidade de Wageningen, nos Países Baixos. Entre os seus principais interesses está a aplicação de conhecimentos no contexto de adaptação às alterações climáticas, através de soluções sustentáveis.

Pedro Brás de Oliveira é investigador no INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária. Licenciado em Produção Agrícola pela Universidade dos Açores, concluiu o mestrado em Produção Vegetal no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, onde depois se doutorou em Engenharia Agrícola. Desenvolve atividade na área das Ciências Agrárias, com especial enfoque em horticultura, pequenos frutos e fisiologia vegetal.