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António Mendes

A biodiversidade nas florestas de Arouca, a partir de vestígios de ADN

Um levantamento recente da biodiversidade nas florestas de Arouca, feito com recurso a vestígios de ADN ambiental, revelou a presença de 339 espécies ou géneros animais em zonas florestais de conservação e de 191 espécies ou géneros em zonas florestais de produção. Os dados sobre a sua presença e dinâmicas ajudam a traçar estratégias que favoreçam a diversidade a longo prazo em florestas geridas com diferentes objetivos.

Um levantamento da biodiversidade nas florestas de Arouca revelou um retrato detalhado da vida selvagem presente nestas paisagens, onde coexistem áreas florestais destinadas à produção e zonas reservadas à conservação. Recorrendo a uma tecnologia científica inovadora, conhecida como ADN ambiental (eDNA), uma equipa de investigadores conseguiu identificar quase 500 espécies de animais, entre mamíferos, aves, anfíbios, répteis, insetos e outros organismos que habitam ou utilizam estes ecossistemas.

O desafio de monitorizar a biodiversidade nas florestas de Arouca partiu da The Navigator Company e da 2BForest, que quiseram conhecer quais os animais que percorrem as zonas florestais de Lourido e Pereiro e quais as suas dinâmicas em áreas dedicadas à produção e à conservação. O estudo foi conduzido pelo SGS Global Biosciences Center, começando pelo trabalho de campo realizado na primavera de 2025.

No local foram recolhidas amostras de ar, vegetação e água. Nestes elementos aparentemente comuns permanecem vestígios microscópicos de ADN libertados pelos organismos, através de células, pólen ou outros fragmentos biológicos. A análise desse material genético permite detetar a presença de diferentes espécies, mesmo quando não são diretamente observadas. Assim, é possível identificar organismos que escapam a abordagens tradicionais de monitorização, como os que são demasiado pequenos ou esquivos.

A partir das amostras de ADN foram identificados 15 grupos taxonómicos distintos:

  • 438 espécies de invertebrados: os insetos representaram a grande maioria da biodiversidade de invertebrados registada, confirmando o papel central que desempenham no funcionamento dos ecossistemas florestais, desde a decomposição da matéria orgânica até à polinização e ao controlo natural de pragas.
  • 59 espécies de vertebrados: entre os vertebrados detetados encontram-se várias espécies de aves, mamíferos, anfíbios e répteis característicos – e, em alguns casos, exclusivos (endemismos) – da fauna ibérica.

Nos mamíferos, foram identificados, por exemplo, o corço, o javali e a lontra-europeia, e nos anfíbios, a rã-ibérica e a salamandra-lusitânica. No grupo das aves destacaram-se espécies comuns como o melro-preto, o gaio e o açor, assim como uma das mais pequenas aves das nossas florestas – a estrelinha-real. Esta análise da biodiversidade nas florestas de Arouca permitiu ainda identificar espécies associadas aos ecossistemas aquáticos, entre as quais peixes de água doce como a boga-do-Douro, o ruivaco e a truta.

ADN animal revela biodiversidade nas florestas de Arouca

Gestão e eventos naturais influenciam biodiversidade nas florestas de Arouca

Para além do inventário das espécies, o estudo procurou compreender de que modo estas espécies se distribuem em áreas florestais geridas com diferentes objetivos: áreas destinadas à produção de madeira e zonas de conservação.

Os níveis mais elevados de diversidade biológica foram identificados em áreas geridas para a conservação, com 339 espécies ou géneros, em comparação com 191 nas áreas de produção. As diferenças foram particularmente evidentes entre os vertebrados, que surgiram com maior frequência nas zonas de conservação. Os insetos revelaram uma presença dominante em ambos os tipos de paisagem florestal, representando uma parte significativa da biodiversidade total.

Os investigadores analisaram também a forma como diferentes perturbações podem influenciar a biodiversidade local, incluindo intervenções de gestão florestal e eventos naturais, como incêndios:

  • No local de Lourido, parte da área de produção tinha sido sujeita a corte de madeira em 2024 e os resultados indicaram que as diferenças entre áreas cortadas e não cortadas foram relativamente moderadas em termos de diversidade total, embora as comunidades de vertebrados tenham sido menos diversas nas zonas onde ocorreu corte. Em contraste, as comunidades de insetos mantiveram padrões relativamente estáveis, independentemente dessa intervenção.
  • No Pereiro, onde parte da área florestal de produção foi afetada por um incêndio em 2024, os investigadores observaram um número ligeiramente superior de espécies nas áreas queimadas comparativamente às zonas não afetadas. No entanto, as áreas não afetadas apresentaram maior diversidade média por ponto de amostragem. Estes resultados sugerem que a regeneração da vegetação após o incêndio pode ter criado condições ecológicas favoráveis para diferentes espécies de invertebrados.

A utilização de ADN ambiental representa uma abordagem científica cada vez mais relevante para o estudo da biodiversidade. Ao permitir identificar espécies sem recorrer à sua observação direta, esta metodologia molecular oferece uma solução eficiente e não invasiva para monitorizar a vida selvagem em grandes áreas naturais ou de produção. Assim, tecnologias inovadoras, como esta, poderão contribuir para aprofundar o conhecimento sobre os ecossistemas e apoiar futuras estratégias de gestão florestal e de conservação que favoreçam a biodiversidade a longo prazo.

Maio de 2026

O Autor

António M. Mendes é Biólogo Molecular Sénior, com 20 anos de experiência em áreas como entomologia, parasitologia e imunologia. Doutorado em Ciências Biomédicas pela Universidade de Lisboa, concluiu formação avançada em laboratórios de instituições de renome nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, tendo coordenado projetos e trabalhos de campo em vários países africanos. Atualmente, exerce o cargo de Field Application Specialist no Global Biosciences Center, da SGS – empresa global, líder em testes, inspeção e certificação, em Lisboa. É especializado no desenvolvimento e implementação de soluções inovadoras para monitorização de ecossistemas, com destaque para o uso de ADN ambiental na avaliação da biodiversidade e impacte ambiental.

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