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13.07.2026

Genoma do priolo e de outras espécies em risco: conhecer para conservar

Genoma do priolo e de outras espécies em risco: conhecer para conservar

Uma das aves mais raras da Europa, o priolo (Pyrrhula murina), endémico da ilha de São Miguel, nos Açores, já tem sequenciado o seu genoma de referência. O avanço integra um esforço europeu e nacional para conhecer os genomas de espécies singulares e ameaçadas, para que esta informação possa apoiar estratégias mais informadas de proteção da biodiversidade.

O priolo (Pyrrhula murina) é uma ave pequena que vive quase exclusivamente na floresta Laurissilva das montanhas leste e nordeste de São Miguel, nos Açores. No início do século XX, depois de décadas de deterioração do seu habitat, chegou a ser dado como praticamente extinto, mas recuperou desde então, graças a prolongados esforços de conservação.

Depois de ter estado classificado como “Criticamente em Perigo” na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), integra agora a categoria “Vulnerável”. Estima-se que em 2026 exista uma população na ordem dos mil indivíduos. A espécie continua, no entanto, a manter uma variabilidade genética reduzida, o que pode comprometer a sua continuidade a longo prazo. Reforçou-se, por isso, o interesse no conhecimento do seu genoma.

Assim, em junho de 2026, o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, deu a conhecer o genoma de referência do priolo. O artigo científico que descreve o trabalho, liderado por Ricardo Jorge Lopes, foi publicado na plataforma Open Research Europe, dando a conhecer um “mapa” que reconstruiu o genoma da espécie ao nível cromossómico, organizando-o em 42 pseudomoléculas que totalizam cerca de 1,2 mil milhões de pares de bases – as unidades fundamentais que formam a sequência do ADN.

A sequenciação teve por base uma amostra de sangue recolhida de uma fêmea adulta, depois libertada no seu habitat natural, com o apoio da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA Açores). O material recolhido ficou depositado no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, preservando em instituições nacionais este recurso genómico da biodiversidade portuguesa.

Segundo Ricardo Jorge Lopes, o novo recurso genómico vai orientar a análise da informação genética recolhida nas últimas duas décadas, permitindo monitorizar a diversidade da população ao longo do tempo e compreender os processos de declínio e isolamento que conduziram à atual fragilidade da espécie. A prazo, defende o investigador no comunicado do CE3C, o genoma deverá “apoiar estratégias de gestão mais eficazes, quer da espécie, quer do restauro do habitat”, em articulação com a SPEA Açores e o Governo Regional dos Açores.

Um “mapa” do ADN ao serviço da conservação

Mas o que é, afinal, um genoma de referência? De forma simplificada, é um mapa-base do ADN de uma espécie: uma sequência organizada que serve como referência para estudar os indivíduos da mesma espécie. Ao comparar diferentes genomas com esse “mapa”, os investigadores conseguem perceber quanta diversidade genética existe numa população, que características a tornam mais vulnerável ou resistente e que sinais de declínio podem exigir medidas específicas de conservação.

Esse conhecimento tem aplicações muito concretas nas estratégias de conservação: ajuda a avaliar o grau de consanguinidade de populações pequenas, a orientar programas de reprodução em cativeiro e de reintrodução na natureza, a identificar adaptações locais e a detetar sinais de declínio antes que se tornem irreversíveis.

É também esta a convicção que move o Atlas Europeu de Genomas de Referência – European Reference Genome Atlas (ERGA) – em que este trabalho se insere. Como ilustra o seu lema Science needs genomes to understand biodiversity, biodiversity needs to be understood to be protected – a ciência precisa de genomas para compreender a biodiversidade e a biodiversidade precisa de ser compreendida para ser protegida.

O genoma do priolo foi sequenciado no âmbito dos trabalhos do ERGA e cofinanciado pelo programa europeu Biodiversity Genomics Europe (BGE), dedicado a construir uma biblioteca genómica da biodiversidade europeia. Por sua vez, o ERGA é o primeiro representante regional (neste caso, europeu) do Earth BioGenome Project (EBP), uma iniciativa de sequenciação global das espécies do planeta. Integrados nestas estruturas, os esforços de conhecimento dos genomas de referência na Europa assentam num modelo descentralizado, com o trabalho distribuído por múltiplas equipas de vários países.

A representação nacional no conselho do ERGA é coordenada pelo já referido CE3C e pelo CIBIO-InBIO/BIOPOLIS, da Universidade do Porto. Foi neste âmbito que nasceu o Biogenoma Portugal que, além de ser a estrutura portuguesa associada ao ERGA, é um consórcio com mais de 50 especialistas de várias instituições – centros de investigação, universidades e museus –, nascido para consolidar a comunidade portuguesa de genómica da biodiversidade, promover formação avançada, ligar os investigadores nacionais às redes internacionais e transferir conhecimento.

Espécies prioritárias, ameaçadas e singulares para além do priolo

O ERGA iniciou-se com um projeto-piloto, cujos primeiros resultados foram divulgados em 2024. Envolvendo cientistas de 33 países, promoveu a descoberta de genomas de referência de alta qualidade para 98 espécies europeias. As equipas portuguesas assumiram a sequenciação de seis espécies consideradas como prioritárias – endémicas, ameaçadas ou sujeitas a fortes pressões em Portugal continental e nos Açores. Duas plantas, três vertebrados e um inseto:

  • Camarinha (Corema album) – Os trabalhos de sequenciação deste arbusto de baga branca comestível começaram em 2024, em múltiplos tecidos de plantas masculinas e femininas, com o objetivo de anotar o genoma de referência desta planta dioica e obter informação sobre a diversidade genética da espécie e os mecanismos que lhe permitem adaptar-se aos habitats costeiros. Esta é uma informação relevante para compreender como vive nas condições ambientais exigentes, nomeadamente de aridez, dos ecossistemas dunares.
  • Louro-da-terra (Laurus azorica) – Este loureiro, que ocorre apenas nos Açores – distinto do loureiro (Laurus nobilis) mais comum em Portugal continental – tem já um projeto próprio no European Nucleotide Archive, no âmbito do piloto ERGA, reunindo dados de sequenciação, montagens genómicas e anotação.
  • Chasco-preto (Oenanthe leucura) – uma ave cuja população em Portugal, de cerca de uma centena de casais, persiste apenas na região agrícola do Douro.
  • Lebre-ibérica (Lepus granatensis) – espécie endémica da Península Ibérica (que não ocorre naturalmente em nenhum outro lugar) com um papel importante nos ecossistemas ibéricos e que tem sido afetada por doenças virais.
  • Saramugo (Anaecypris hispanica) – um pequeno peixe de água doce, considerado como um dos mais vulneráveis à extinção em toda a Península Ibérica.
  • Escaravelho-cavernícola-da-Ilha-Terceira (Trechus terceiranus) – pequeno coleóptero endémico da ilha Terceira, nos Açores, associado a habitats cavernícolas.

Aos trabalhos de sequenciação destas seis espécies juntam-se esforços dirigidos a outras espécies, quer no âmbito deste Atlas, como é o caso do priolo, quer fora do ERGA. Eis alguns exemplos:

– Em 2018, uma equipa portuguesa publicou a primeira sequência do genoma do sobreiro (Quercus suber). À data, foi a informação genómica mais completa disponibilizada para esta espécie, embora ainda não na sua versão final. O trabalho identificou mais de 900 milhões de pares de bases de ADN de uma árvore selecionada e constituiu um marco para o conhecimento genético de uma das árvores mais icónicas em Portugal.

– Já no universo do ERGA, um genoma de uma espécie portuguesa recentemente sequenciado é do lapa (Patella rustica), cuja montagem de nível cromossómico foi publicada já em 2026, um recurso fundamental para investigar como as espécies marinhas da zona entremarés respondem ao aquecimento global.

– Outra espécie portuguesa em estudo no âmbito do ERGA é o agrião-dos-Açores (Cardamine caldeirarum). As amostras desta planta endémica foram enviadas para sequenciação no Instituto Earlham, em Norwich, Reino Unido, num trabalho que pode ajudar a esclarecer um mistério antigo: a possível existência de espécies crípticas – plantas geneticamente distintas, mas visualmente idênticas – neste arquipélago.

Por detrás destes trabalhos está uma ideia que precisa de ganhar força: de que a biodiversidade não se resume à diversidade de espécies. Inclui outras dimensões, como a diversidade genética dentro de cada espécie. Sequenciar genomas de referência é, neste contexto, dotar a conservação de uma base de informação estrutural.

O genoma do priolo é um bom exemplo. Ter o mapa do ADN desta espécie, cuja população está reduzida a uma única ilha e é pouco diversa geneticamente, é uma importante ferramenta para monitorizar a sua diversidade, antecipar riscos e desenhar medidas de gestão mais informadas. Aplicada a um número crescente de espécies, esta abordagem pode ajudar a mudar a forma como olhamos – e cuidamos – do património natural português e europeu.