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06.10.2026

Novo livro dedicado aos produtos florestais não lenhosos em Portugal

Novo livro dedicado aos produtos florestais não lenhosos em Portugal

Bolota, castanha, cogumelos, cortiça, medronho, mel, pinhão e resina são alguns dos produtos florestais não lenhosos reunidos numa nova obra portuguesa, escrita com o contributo de 81 autores. Disponível em acesso aberto, o livro cruza produção e fileiras económicas com condições ecológicas, gestão e oportunidades de valorização.

Coordenado por Margarida Tomé e Tiago Lima, do Centro de Estudos Florestais (CEF) do Instituto Superior de Agronomia (ISA), o livro “Os Produtos Florestais Não Lenhosos de Portugal Continental” resulta de uma coletânea de trabalhos técnico-científicos sobre um conjunto de produtos que, para além da madeira, estão relacionados com as árvores, os sistemas agroflorestais e as florestas.

Com contributos de 81 autores nacionais, ligados a universidades, centros de investigação, centros de competências, empresas e outras instituições, o livro é formalmente apresentado, em formato físico, no 10.º Congresso Florestal Nacional (5 a 9 de outubro de 2026) e pode ser consultado, capítulo a capítulo, no Repositório da Universidade de Lisboa a partir do site do ISA/CEF.

Cada capítulo é dedicado a um produto ou recurso específico e dá a conhecer o respetivo valor ou o potencial de mercado com que pode complementar a produção lenhosa, diversificando fontes de rendimento e acrescentando valor aos espaços florestais e florestados.

Os capítulos revelam, no entanto, realidades muito diferentes. Alguns tratam fileiras consolidadas, enquanto outros analisam recursos pouco explorados, sistemas tradicionais de produção ou serviços associados à floresta.

Cinco fileiras estabelecidas, vindas diretamente da floresta

A publicação enquadra a cortiça como uma das fileiras florestais não lenhosas mais consolidadas do país e associa-a sobretudo aos montados e sobreirais do Sul. O capítulo acompanha a fileira da cortiça, desde a ecologia e gestão dos sobreirais e montados, até ao descortiçamento e à indústria transformadora. Analisa também os serviços dos ecossistemas associados a estes sistemas e a importância da gestão para manter a saúde das árvores e a produção ao longo das sucessivas tiragens de cortiça.

A produção de castanhas é também apresentada como um “produto direto com uma fileira estabelecida”. Grande parte cultura do castanheiro (Castanea sativa) concentra-se no interior Norte e a área de produção ronda os 50 mil hectares, segundo dados do Recenseamento Agrícola de 2019 citados no capítulo, embora os autores estimem uma área potencial de adaptação da espécie bastante superior, próxima dos 2,5 milhões de hectares.

O capítulo dedicado ao medronho recorda que este fruto, tradicionalmente associado à produção de aguardente de medronho, é hoje utilizado também em licores, cervejas, vinagres, compotas, doces, geleias e outros produtos alimentares, o que tem vindo a consolidar a sua fileira. Embora o medronheiro (Arbutus unedo) ocorra espontaneamente do Norte ao Sul, a sua produção para valorização económica tem uma presença particularmente forte no Centro, Alentejo e Algarve.

Outro dos produtos florestais não lenhosos com grande tradição e valorização alimentar é o pinhão que, em Portugal, é apenas colhido no pinheiro-manso (Pinus pinea). O capítulo aborda a produção de pinha e pinhão, a gestão dos povoamentos desta espécie e os fatores que condicionam a sua produtividade. A produção está particularmente associada ao Sul – Ribatejo e Alentejo –, onde se concentram as duas maiores Regiões de Proveniência de pinheiro-manso e parte significativa da produção de pinhão.

A resina está igualmente em foco e, depois de décadas de forte redução da atividade resineira, o capítulo que lhe está dedicado destaca um renovado interesse por esta matéria-prima renovável, que serve diferentes indústrias. O capítulo acompanha a fileira desde a produção e extração até à transformação industrial e apresenta também os desafios económicos, laborais e de gestão associados à recuperação deste sector, em que Portugal já foi uma das referências mundiais.

Inovar com bolota e seiva: recursos a avaliar e explorar

Dois outros capítulos descrevem produtos florestais em que o potencial de mercado não se encontra aproveitado ou aprofundado: a bolota e a seiva das árvores, respetivamente.

A bolota surge na obra entre os “produtos diretos para inovar”, refletindo um recurso com utilização histórica, sobretudo na alimentação animal, mas que apresenta possibilidades de transformação para alimentação humana, com a diversificação de soluções e criação de novos produtos, em especial derivados da bolota de azinheira.

O capítulo identifica, entre os produtos alimentares já desenvolvidos, a farinha e o óleo, além de utilizações mais recentes em bebidas e produtos de pastelaria. O desenvolvimento da fileira enfrenta, contudo, desafios de mecanização, escala e desenvolvimento de mercado que têm limitado a quantidade de bolota valorizada. Apesar das novas apostas na transformação de bolota por parte de empresas portuguesas, os autores estimam que cerca de metade da bolota de azinheira permaneça no solo.

Ainda mais exploratória é a possibilidade de aproveitar a seiva de árvores. Ao contrário do que acontece na América do Norte com o xarope de bordo, a extração de seiva não tem tradição nem fileira em Portugal.

O capítulo dedicado a este recurso analisa, por isso, o potencial das espécies passíveis de gerir para extração de seiva no nosso país, em particular o padreiro (Acer pseudoplatanus) e o bidoeiro (Betula pubescens). Para o efeito, cruza as condições ecológicas das espécies com os requisitos climáticos, nomeadamente as baixas temperaturas necessárias à promoção dos fluxos de seiva. Os próprios autores salientam que são necessários ensaios nacionais para avaliar a produtividade, a concentração de açúcares e a viabilidade económica antes de se poder falar numa nova fileira.

Os produtos florestais não lenhosos que não vêm das árvores

A valorização produtos florestais não lenhosos não termina nos produtos diretamente obtidos das árvores. Por isso, a obra também dedica capítulos ao mel e apicultura, aos cogumelos silvestres comestíveis (macrofungos) e à caça, três segmentos designados como “produtos indiretos com fileira estabelecida”.

O livro enquadra a apicultura como uma fileira estabelecida e aborda não só o mel, mas também a relação entre disponibilidade de recursos florais, a localização dos apiários e o potencial produtivo. A equipa ligada à obra desenvolveu inclusivamente um trabalho de mapeamento do potencial apícola de Portugal continental.

No caso dos macrofungos, os autores chamam a atenção para o valor económico potencial dos cogumelos silvestres comestíveis, em particular como produto de exportação. Contudo, alerta também para as limitações que decorrem maioritariamente da informalidade da sua recolha e comercialização, assim como da inexistência de licenças e limites de colheita ou certificação. As prioridades identificadas prendem-se, por isso, com a criação de um enquadramento legal específico no contexto de “uma política florestal abrangente, com base colaborativa”.

No que diz respeito ao potencial em termos de diversidade de cogumelos comestíveis, o destaque vai para os distritos de “Portalegre, Beja, Setúbal, Leiria, Santarém, Évora, Faro, Guarda, Castelo Branco, Viseu e Coimbra”, referem os autores.

Também a caça surge na obra como um produto indireto com fileira estabelecida. O capítulo analisa a caça não apenas enquanto atividade recreativa, mas como uma utilização económica do território ligada à gestão de populações de fauna selvagem, às propriedades rurais e às atividades complementares que nelas podem ter lugar.

Os espaços florestais, agroflorestais e de matos constituem habitat para diferentes espécies, incluindo cinegéticas, e a sua gestão influencia a disponibilidade de abrigo, alimento e água. Neste sentido, a exploração cinegética depende da conservação dos habitats, da capacidade de suporte dos territórios, do estado sanitário das populações e do cumprimento das regras aplicáveis à caça.

Tradição, valor ecológico e opções de gestão

O livro aborda ainda outras fileiras, com diferentes oportunidades, tradições e valências:

– Pastoreio em Floresta: prática histórica na Europa, muito associada aos sistemas mediterrânicos, o pastoreio em floresta ou sistemas agroflorestais permite aproveitar recursos alimentares que existem sob o coberto arbóreo, incluindo vegetação e frutos, mas tem de ser adequadamente gerido para que os benefícios compensem potenciais efeitos prejudiciais: carga animal, duração e época do pastoreio e espécies pecuárias são elementos a ter em conta nas opções de gestão.

– Pomares tradicionais: entre os pomares tradicionais em Portugal, a obra destaca as culturas extensivas da amendoeira, figueira, alfarrobeira, oliveira e cerejeira, reforçando a importância destes sistemas posicionados entre a floresta e a agricultura, muitas vezes mistos em termos de espécies e produções, e tipicamente bem-adaptados às condições do relevo, às limitações de água e às propriedades do solo.

Entre os exemplos estão a cereja no Douro Vinhateiro, o figo preto ou mulato em Santarém, a conjugação de alfarrobeiras, amendoeiras, figueiras e oliveiras (ou algumas das espécies) no Algarve, o amendoal extensivo em Trás-os-Montes ou o olival tradicional que, em várias regiões, está na origem de azeites e azeitonas com Denominação de Origem Protegida.

Como refere o capítulo, estas culturas “contribuem para a alimentação de populações rurais, são habitats para a vida selvagem, assumem outros serviços na área do turismo (…)”, além de manterem uma gestão ambientalmente sustentável e uma valorização dos produtos regionais característicos de diferentes locais.

– Fungos e floresta: a obra encerra com um capítulo que distingue a importância ecológica dos fungos, dando a conhecer o seu contributo para funções naturais vitais, como a decomposição da matéria orgânica e a reciclagem de nutrientes. Este capítulo, que mereceu uma “Menção honrosa”, é uma forma de sublinhar que a importância dos produtos florestais não lenhosos deve ser considerada também para além do seu valor convencional de mercado.

Muitos produtos florestais, muitas condições a considerar

Apesar dos capítulos não seguirem uma estrutura de informação homogénea, a obra aponta uma variedade de produtos florestais não lenhosos que podem ser encarados como uma fonte adicional de retorno para proprietários e produtores. Em simultâneo, deixa também patente que nenhum destes produtos deve ser encarado como uma solução viável em qualquer local ou sob qualquer condição.

Relevo, solo e clima, objetivos de gestão, custos de produção, enquadramento legal, capacidade de inovação e transformação ou existência de mercado estabelecido são dimensões a considerar por quem procura valorizar os seus espaços florestais, conciliando produtos lenhosos e não lenhosos, assim como valor económico e ambiental.