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Madeira

“Idade da Madeira” moldou as grandes transformações humanas

Falamos da Idade da Pedra, da Idade do Bronze e da Idade do Ferro como grandes marcos de desenvolvimento, mas esquecemos um outro material que moldou a evolução humana e as suas grandes transformações: a madeira. Descubra, com Filipe Costa e Silva, as razões que justificam o reconhecimento da “Idade da Madeira” e a sua merecida inscrição na pré-história.

Quando pensamos na pré-história da humanidade, ocorrem-nos imagens de homens primitivos a lascar pedras, abrigados em grutas. O próprio nome com que batizámos este longo período de 3,3 milhões de anos – Paleolítico ou Idade da Pedra – solidifica esta visão do “homem das cavernas”. Embora compreensível, esta designação é o resultado de um dos maiores enviesamentos da arqueologia: ao basear-se exclusivamente nos indícios preservados, esquece uma matéria fundadora do desenvolvimento humano – a matéria que funda a “Idade da Madeira”.

Chamamos a esse passado “Idade da Pedra” porque a pedra é o que permanece e deixa uma marca indelével no registo geológico. A pedra atravessa o tempo. É a antítese do efémero, representa a realidade inabalável: uma matéria inorgânica de que a metafísica diz “é aquilo que está e é”.

A madeira, por outro lado, é o orgânico e está intimamente ligada aos ciclos da natureza, ao que nasce e morre. A madeira traz em si o mistério da génese e não é por acaso que a raiz etimológica desta palavra, do latim mater, deriva de “mãe” e “matéria”.

“Idade da Madeira", tal como a "Idade da Pedra"

Mitos de diversas tradições espalhadas pelo globo apontam as árvores como mães do “primeiro homem”: Quando Ulisses regressa a Ítaca, 20 anos depois da guerra de Tróia, sem ser reconhecido por Penélope, esta diz “Quem és tu? Saíste de alguma pedra ou de um carvalho?”. Virgílio, muitos séculos mais tarde, descreve, na Eneida, pela voz do rei Evandro, a raça dos primeiros homens da região onde seria fundada a Roma Imperial: “Estes bosques foram outrora morada de faunos e ninfas / E de uma raça de homens que nasceu dos troncos das árvores e do carvalho duro.”

Do latim “mater”, madeira deriva de “mãe” e “matéria”.

Mas a arqueologia não perde o seu tempo a escavar entre os versos gregos ou romanos, escritos no liber de árvores antigas (o liber é a parte interna da casca das árvores, onde primeiro se escreveu e que, com o tempo, originou a palavra “livro”). E a madeira que poderia contar a história desse passado remoto, dessa noite dos tempos, há muito que se decompôs e gira invisível nos ciclos biogeoquímicos. Ao longo desses milénios, para frustração dos arqueólogos, legiões de fungos e bactérias encarregaram-se de apagar os registos dessas testemunhas orgânicas que nos permitiriam conhecer essa “Época” ou “Idade da Madeira”.

Felizmente, uns poucos artefactos de madeira foram conservados pelas condições excecionais do ambiente, o que lhes permitiu escapar à ação devoradora dos micróbios. A conservação da madeira pode ocorrer em ambientes anaeróbios – onde a inexistência de oxigénio impede a atividade microbiana (em particular, dos fungos e bactérias) – e a ausência de água limita também a sua degradação. Assim, em condições especiais, a madeira pode preservar-se por longos períodos sem decomposição natural.

Os achados de madeira arqueológica que subsistiram sugerem, assim, uma outra perspetiva da pré-história.

A “Idade da Madeira” é transversal e fundadora

Ao longo dos últimos anos, têm sido formulados novos argumentos que desafiam à reavaliação da história da humanidade e fazem do modelo tradicional das Idades da Pedra, do Bronze e do Ferro uma simplificação enganosa.

A verdadeira “Idade” que marcou a espécie humana, ininterruptamente desde os nossos primeiros ancestrais, foi a “Idade da Madeira”. Graças à sua combinação única de propriedades – resistência, leveza, facilidade de uso e renovabilidade – a madeira foi o material fundamental que possibilitou quase todos os avanços tecnológicos, sociais e cognitivos da civilização humana.

Ao moldar as grandes transformações humanas, a Idade da Madeira tem lugar na história

Os artefactos de madeira arqueológica são como raras e valiosas janelas que nos permitem olhar para a tecnologia orgânica do passado. Revelam um conhecimento profundo, uma sofisticação técnica e uma centralidade simbólica que sugerem a madeira como pilar primordial sobre o qual a humanidade se ergueu.

Os artefactos de pedra que encontramos em abundância nem sempre foram o fim, mas sim o meio; foram, em muitos casos, as ferramentas para trabalhar o material verdadeiramente essencial: a madeira.

Neste caminho, a árvore foi a mãe da humanidade: deu-nos o fogo, deu-nos a matéria com que erguemos os lares, forjou as nossas armas e um dia mostrou ao homem que era a ponte simbólica entre a terra e o céu.

O fogo: primeiro dom da “Idade da Madeira”

O domínio do fogo é, talvez, o momento mais transformador da história humana e é um evento indissociável da madeira.

A evidência do seu controlo regular remonta há pelo menos 400 mil anos, em locais como a Gruta de Qesem em Israel, com indícios fortes que recuam o uso do fogo até há um milhão de anos, na Gruta de Wonderwerk, na África do Sul. Esse controlo não implicava ainda um conhecimento da criação do fogo. Era antes a exploração de uma chama e a sua conservação.

A madeira foi a primeira e a mais duradoura fonte de energia da humanidade. O fogo que ela alimentou revolucionou a nossa dieta, permitindo cozinhar alimentos e fornecer ao organismo uma quantidade de calorias que, muitos antropólogos, como Richard Wrangham, acreditam ter sido o catalisador para o desenvolvimento do cérebro.

É altamente provável que o conhecimento do fogo se tenha tornado extremamente sofisticado. A análise de carvões (antracologia) em lareiras paleolíticas revela uma seleção intencional de espécies para diferentes objetivos: os nossos antepassados sabiam que madeiras densas como as dos carvalhos (Quercus spp.) produzem brasas duradouras, ideais para cozinhar e aquecer durante a noite, enquanto madeiras resinosas como as dos pinheiros (Pinus spp.) eram perfeitas para acender o fogo rapidamente.

Graças ao fogo, as populações puderam sobreviver em climas frios, expandindo a sua distribuição pelo globo. As fogueiras multiplicaram-se e diminuíram a noite. A sua luz dominou os medos e permitiu afastar as feras – as exteriores e as interiores – da grande escuridão do ser. O segredo do fogo, roubado ao céu dos deuses por um misterioso Prometeu, trouxe um pequeno sol para o lar dos Homens e tornou-se um centro gravitacional para a vida social e o desenvolvimento humano.

Rubens pintou o Promoteu a roubar aos deuses o fogo sagrado

Em 1636, Rubens pintou o Promoteu a roubar aos deuses o fogo sagrado. Entregou-o aos mortais, libertando-os da submissão a Zeus. Com isto, deu-lhes a luz, símbolo da razão, descoberta e progresso. Em Wikimedia Commons.

A árvore como alimento, medicina e construção

Para além da dádiva do fogo, a árvore terá sido uma despensa e uma farmácia. Fornecia frutos e sementes, fontes essenciais de calorias e gorduras. As suas cascas, folhas e resinas foram, quase certamente, a base da primeira medicina humana, um conhecimento empírico partilhado com outros primatas. São inclusive conhecidos chimpanzés que sofrem de malária ou outras infeções e que mastigam deliberadamente a planta Vernonia amygdalina, reconhecida pelas suas fortes propriedades antiparasitárias, antibacterianas e antivirais.

A madeira forneceu também o primeiro material de construção. As primeiras habitações humanas terão sido abrigos construídos com ramos e troncos, provavelmente cobertos com peles. A prova mais antiga e notável desta capacidade construtiva foi recentemente descoberta em Kalambo Falls, na Zâmbia. Ali, os arqueólogos encontraram dois grandes troncos interligados, datados de há pelo menos 476 mil anos. Um tronco foi trabalhado com um entalhe preciso para encaixar perpendicularmente sobre outro, formando uma estrutura estável. Esta obra implica um trabalho de cortar e moldar a madeira, numa proeza de carpintaria que só foi possível graças à utilização de ferramentas de pedra.

Primeiras construções complexas em madeira: 476 mil anos

Imagem incluída no artigo “Evidence for the earliest structural use of wood at least 476,000 years ago”, publicado na Nature 622, 2023.

Feita de salgueiro-de-frutos-grandes (Combretum imberbe), uma madeira de extrema dureza e resistência à decomposição, esta estrutura aconselha a uma reavaliação das capacidades cognitivas que atribuímos à nossa espécie nesse passado remoto.

Este achado, atribuído aos homens primitivos do Pleistoceno médio (período de máxima especulação científica, a que os paleoantropologistas chamam muddle in the middle) põe em causa a noção de que os nossos antepassados eram apenas nómadas oportunistas e sugere planeamento, intenção e aptidões de construção de estruturas duradouras.

As primeiras armas

As primeiras armas não foram pedras lascadas, mas sim paus e clavas de madeira, confirmando o carácter fundador da “Idade da Madeira”.

A madeira era o material ideal: leve, resistente e facilmente moldável. A verdadeira revolução armamentista do Paleolítico Médio foi a lança de arremesso, uma arma que exemplifica a complexidade do conhecimento tecnológico desses misteriosos homens primitivos.

As Lanças de Schöningen, na Alemanha, com cerca de 300 mil anos, são um exemplo extraordinário. Encontradas junto a vestígios de cavalos selvagens, estas lanças não são simples paus afiados. São armas de caça aerodinamicamente perfeitas, feitas a partir de madeira de espruce ou pícea (Picea spp.).

Os seus fabricantes, batizados nesse afã classificatório da antropologia como Homo heidelbergensis, selecionaram a madeira da base do tronco, a mais densa, e deslocaram intencionalmente o centro de gravidade para o terço frontal, garantindo um voo estável e preciso, tal como acontece num dardo moderno. Este nível de sofisticação implica pelo menos um profundo conhecimento empírico de física, de balística e das propriedades mecânicas da madeira.

Mais tarde, o avanço do conhecimento da madeira permitiu a evolução para o arco e flecha, uma arma de uma complexidade notável. Embora os arcos de madeira mais antigos que sobreviveram no registo arqueológico, como os de Holmegaard, na Dinamarca, sejam relativamente recentes (cerca de nove mil anos), a evidência indireta mostra que esta tecnologia é muito mais antiga.

A análise de pontas de projétil de osso e pedra encontradas em locais como a Caverna de Sibudu, em África, prova que o Homo sapiens já utilizava o arco e flecha há pelo menos 62 mil anos. A construção de um arco funcional, feito de madeiras selecionadas, como o Olmo (Ulmus spp.) dos arcos de Holmegaard, exige um conhecimento íntimo de como os materiais respondem à tensão e à compressão – um testemunho da longa e íntima relação entre o fabricante paleolítico e a árvore.

Lanças e bastões de madeira, com cerca de 300 mil anos

8 lanças de arremesso e 6 bastões de ponta dupla descobertos em Schöningen. Imagem incluída no artigo “The wooden artifacts from Schöningen’s Spear Horizon and their place in human evolution”, publicado em The Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 2024

A roda e a navegação

O círculo é um símbolo ancestral, bem visível na natureza e nos corpos celestes, e foi usado na arquitetura sagrada ao longo da história humana, sendo o monumento em Göbekli Tepe, na Turquia, o exemplo mais antigo (11500 anos) a usá-lo. A invenção da roda como mecanismo, no entanto, é muito mais recente, surgindo apenas por volta de 3500 a.C.

Mas de onde terá surgido a noção conceptual do eixo e da roda? Talvez tenham sido o sol e a lua que inspiraram a primeira ideia de círculo, mas é plausível especular que foi a árvore que nos deu a ideia do eixo e a concretização da roda. Uma secção transversal de um tronco de árvore é já uma roda em potência. A imagem de um tronco a rolar por uma encosta é uma natural demonstração do princípio.

A mais antiga roda de madeira do mundo que se conhece, a Roda de Ljubljana Marshes (cerca de 3200 anos a.C.), é feita de freixo (Fraxinus spp.) com um eixo de carvalho (Quercus spp.) e é uma demonstração de que a madeira foi mais uma vez o material fundamental para o avanço tecnológico.

A roda permitiu o transporte de cargas pesadas, revolucionou a agricultura e a guerra, e acelerou o desenvolvimento das civilizações. Neste sentido, podemos dizer que a civilização rolou na história sobre um dom da árvore.

Um tronco a rolar - terá inspirado a roda?
As primeiras embarcações foram feitas de madeira

O desejo de atravessar rios, lagos e, eventualmente, mares, só pôde ser concretizado através da madeira.

As primeiras embarcações foram provavelmente simples jangadas de troncos, seguidas pelas canoas escavadas a partir de um único e grande tronco de árvore. É difícil dizer, no entanto, há quantos milhares de anos terá o homem pela primeira vez utilizado a madeira como embarcação.

O achado mais antigo é a canoa de Pesse, nos Países Baixos, datada de há cerca de oito mil anos a.C. (Mesolítico) e feita de pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris). De qualquer forma, a colonização de ilhas distantes, como a Austrália, desde há mais de 50 mil anos, teria sido impossível sem algum tipo de embarcação. Também os vestígios da colonização na ilha de Okinawa, Japão, datados de há cerca de 35 mil a 30 mil anos a.C., comprovam que foram feitas grandes travessias marítimas, de mais de 100 quilómetros desde a massa continental mais próxima.

Estas evidências demonstram claramente que a navegação é muito anterior aos registos que sobreviveram. Que espécies de árvores terão fornecido a madeira para essas embarcações? E que tipo de embarcações seriam estas para conseguirem atravessar a linha do horizonte? Tudo aponta para que, já nesse passado tão distante, muito antes do general romano Pompeu o Grande, um sonhador tenha também dito “navegar é preciso, viver não é preciso”!

A árvore como eixo do mundo

Talvez o papel mais profundo e menos visível da árvore tenha sido desempenhado no domínio espiritual.

Nas mais diversas tradições culturais ao redor do globo, a árvore simboliza o Axis Mundi – o Eixo do Mundo. Este eixo é uma ponte que liga os três reinos do cosmos: o submundo com as suas raízes, o mundo terrestre com o seu tronco, e o mundo celeste com a sua copa.

No xamanismo, a forma mais antiga que se conhece de práticas espirituais, a árvore é a escada do cosmos que, em transe, o xamã sobe para comunicar com as entidades do mundo celeste. A Bétula (Betula spp.) na região siberiana é o exemplo clássico desta árvore ritual.

A prova arqueológica mais notável desta cosmovisão é o Ídolo de Shigir, encontrado num pântano nos Montes Urais, na Rússia. Com mais de 12 mil anos, é a escultura de madeira mais antiga do mundo que se conhece, erguendo-se a cinco metros.

Ídolo de Shigir, Museum of the Middle Urals, em Wikimedia Commons

Ídolo de Shigir, Museum of the Middle Urals, em Wikimedia Commons

Feito de um único tronco de lariço (Larix sibirica), o Ídolo é uma prancha monumental coberta de padrões geométricos e rostos enigmáticos. A escolha do lariço, uma madeira extremamente resistente à decomposição, sugere uma intenção clara de que o objeto fosse duradouro – um marcador permanente no território ou um ídolo para ser venerado por muitas gerações. É muito provavelmente um totem, usado em rituais xamânicos, uma representação física da Árvore Cósmica e um eixo de conexão com o mundo dos espíritos.

Sublinhe-se, no entanto, que o simbolismo que confere à árvore uma dimensão espiritual nunca gerou idolatrias por ela própria. Nunca a árvore foi adorada por ela mesma, mas pelo que se revela através dela, isto é, como símbolo de realidades de um mundo transcendente. E a partir desse momento, perdido no tempo, em que a árvore mostrou ao homem o Eixo do Mundo, devido à sua ação simbólica, a árvore sacraliza o espaço.

Desde o primeiro fogo roubado a uma árvore em chamas, à primeira lança cravada numa presa, à embarcação que nos fez andar sobre as águas e à copa que nos fez erguer o olhar para o céu, o caminho da humanidade foi sempre feito com as dádivas da árvore. Apesar de o registo arqueológico estar irremediavelmente inclinado para a pedra, há esta outra história que é contada pelas tábuas do soalho que pisamos, pela essência de que é feito o livro que lemos e pela sombra da árvore sob a qual nos sentamos a meditar. Uma história onde a “Idade da Madeira” tem lugar e a árvore é também mãe e matéria.

A madeira moldou as grandes transformações humanas

Uma colaboração de Filipe Costa e Silva

Filipe Costa e Silva é professor auxiliar no Instituto Superior de Agronomia. Leciona e desenvolve investigação nas áreas de genética e melhoramento florestal e ecofisiologia florestal. Em cursos de formação/divulgação aborda o conhecimento das árvores através da ciência e da relação do homem com as árvores ao longo da história, na literatura e nos seus diversos simbolismos.