Conhecer

Caso de Estudo

ResAlliance: soluções para uma paisagem mediterrânica mais resiliente

Durante três anos, o projeto europeu ResAlliance reuniu investigadores, decisores, produtores e gestores de sete países da bacia do Mediterrâneo para criar e partilhar soluções práticas dirigidas aos desafios climáticos e socioeconómicos que pressionam os territórios agrícolas e florestais da região. Em resultado, foram produzidos recursos práticos e aplicáveis, muitos deles em português, que ajudam a tornar as paisagens mediterrânicas mais resilientes.

O projeto europeu ResAlliance nasceu para promover e facilitar o fluxo de informação e de conhecimento entre investigadores, agricultores, gestores florestais, dirigentes associativos e outros intervenientes dos sectores agrícola e florestal da bacia mediterrânica, aumentando a sua consciência e capacitação para adaptar os ecossistemas aos riscos climáticos, nomeadamente aos incêndios, secas, cheias, pragas e desertificação.

O ResAlliance – cujo nome original é Landscape resilience knowledge alliance for agriculture and forestry in the Mediterranean basin – decorreu entre finais de 2022 e de 2025, e juntou 16 parceiros, incluindo universidades, centros de investigação, empresas e organizações sectoriais de sete países mediterrânicos: Chipre, Espanha, Grécia, Itália, Líbano, Portugal e Tunísia.

O Instituto Superior de Agronomia (ISA) foi o parceiro do projeto em Portugal, com a colaboração da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Coordenado pelo Instituto Florestal Europeu, o projeto foi financiado pelo programa Horizon Europe, da União Europeia.

PROJETO: ResAliance

ÁREA DE ESTUDO: Norte de Portugal (Trás-os-Montes, Alto Douro e Alto Minho)

TEMAS: Transferência de conhecimento; Resiliência climática e socieconómica; Boas práticas; Inovação.

ACESSO RÁPIDO

WEBSITE OFICIAL DO PROJETO: https://www.resalliance.eu/

BLOG DO PROJETO: https://resilience-blog.com/author/resalliance/


DESAFIO

Coordenar vontades para reforçar a resiliência da paisagem mediterrânica

Ao longo de muitos séculos, as comunidades humanas transformaram as paisagens mediterrânicas. Profundamente alterados, estes territórios foram-se mantendo resilientes. Com o agravamento dos efeitos das alterações climáticas, o Mediterrâneo está, contudo, vulnerável a fenómenos extremos mais frequentes e intensos, como ondas de calor, secas prolongadas, tempestades, cheias e incêndios.

Em Portugal, este cenário cruza-se com fragilidades estruturais conhecidas:

  • Fragmentação da propriedade e dificuldade de gestão conjunta;
  • Abandono e envelhecimento da população nas zonas rurais;
  • Redução da mão-de-obra nos sectores agrícola e florestal;
  • Falta de continuidade na gestão dos terrenos, com aumento do risco de incêndio.

40% do território da Europa é coberto por floresta e as explorações agrícolas cobrem 39% da área da EU. Neste sentido, a atuação de proprietários e gestores agrícolas e florestais é essencial para a resiliência da paisagem.

Algumas práticas que favorecem a resiliência da paisagem podem ser executadas individualmente por agricultores, pastores e gestores florestais, nas suas terras, mas esta é uma responsabilidade que exige esforços coordenados, com escala, facilitados por associações florestais, grupos de agricultores ou organizações de proprietários.

Neste contexto, o projeto ResAlliance focou-se em mobilizar os agentes que atuam nesta paisagem, para que saibam como tornar o território mediterrânico mais preparado para resistir, adaptar-se e recuperar de perturbações extremas, conciliando sustentabilidade ambiental, económica e coesão social.

DIAGNÓSTICO

Ultrapassar as barreiras que travam medidas de resiliência

O levantamento aprofundado das vulnerabilidades mediterrânicas e das dificuldades na adoção de práticas resilientes permitiu consolidar uma visão conjunta sobre quatro barreiras:

  • Pressões climáticas crescentes. O Mediterrâneo está a aquecer mais rápido do que outras regiões. A variabilidade climática leva a perdas de produtividade e a escassez hídrica condiciona culturas tradicionais, espécies historicamente adaptadas e ecossistemas dependentes da água.
  • Vulnerabilidades socioeconómicas. A propriedade fragmentada, a par do abandono e envelhecimento da população em zonas rurais, dificulta ações integradas e gestão ativa, criando territórios mais vulneráveis ao fogo. Adicionalmente, existe dificuldade no acesso a financiamento e na mobilização de investimento para as regiões de menor atratividade económica.
  • Governação descoordenada. A falta de articulação entre políticas agrícolas, florestais, de ordenamento e climáticas dificulta a promoção de abordagens intersectoriais e a transferência de conhecimento da ciência para as políticas públicas e as práticas em campo.
  • Conhecimento que não chega ao terreno. Apesar da investigação produzida, a sua aplicabilidade prática é limitada por falta de formatos acessíveis aos destinatários, de formação em temas específicos, de demonstrações práticas e de eficiência em chegar às zonas rurais.

Estas barreiras serviram de ponto de partida para desenhar ações que ajudassem a ultrapassá-las.

OBJETIVOS E MEDIDAS

Partilha em rede e no terreno para promover gestão, tecnologia, financiamento e governança

O objetivo central do ResAlliance foi fazer chegar a quem atua no território o conhecimento, as soluções inovadoras e as ferramentas práticas para implementar medidas de mitigação e resiliência. O trabalho foi organizando em quatro eixos temáticos – práticas de gestão, tecnologia, financiamento e governança – e apoiado em duas estruturas:

  • LandNet, uma rede mediterrânica de partilha e cooperação. Uma plataforma online que reuniu mais de dois mil utilizadores, incluindo agricultores e silvicultores, para trocar experiências, debater soluções e aceder a materiais formativos. Embora já não aceite novos registos, toda a informação permanece disponível para consulta.
  • LandLabs, um conjunto de laboratórios vivos – práticos e experimentais. Criados em Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Chipre, os LandLabs permitiram testar boas práticas, demonstrar soluções e construir conhecimento colaborativo, aplicável e replicável. Fizeram-se demonstrações práticas de soluções inovadoras, visitas de campo para divulgação de boas práticas, teste de técnicas adaptadas a condições biofísicas e socioeconómicas locais e fóruns para o diálogo entre quem produz, investiga e decide.
ResAlliance: soluções para uma paisagem mediterrânica mais resiliente

Os LandLabs realizados em Portugal focaram-se na região norte – Trás-os-Montes, Alto Douro e Alto Minho – e incidiram em temas como:

  • Gestão integrada do risco de incêndio em mosaicos agroflorestais;
  • Valorização de produtos florestais inovadores não lenhosos como vias para obter rendimento e financiar a gestão;
  • Estratégias de governança para territórios fragmentados;

Com o final do projeto, o conhecimento que deles resultou pode ser consultado no site do projeto, embora os LandLabs tenham terminado a sua atividade.

Além destas estruturas, o Líbano e a Tunísia partilharam conhecimento e experiências de respostas concretas aos desafios das alterações climáticas nas suas regiões.

RESULTADOS / RECOMENDAÇÕES

Recursos concretos para atuar na resiliência das paisagens mediterrânicas

Além dos já referidos LandNet e LandLabs, destacam-se, entre os resultados do ResAlliance, cinco outras iniciativas e recursos dirigidos à partilha, inovação, formação e ação política:

– Fichas técnicas (mais de 120)

Documentos práticos com casos de estudo e soluções de resiliência implementadas, desenvolvidas pelos autores dos projetos e disponíveis em português, inglês, francês, italiano e grego. Podem ser filtradas por tipo de solução, sector, perigo climático ou ator de implementação. Para Portugal foram desenvolvidas fichas, com temas como:

ResAlliance: soluções para uma paisagem mediterrânica mais resiliente

– Compilação das fichas produzidas

Uma compilação das mais de 120 fichas produzidas, organizadas por temática, está a ser reunida num documento único, o Building Resilient Landscapes in the Mediterranean. A versão portuguesa está publicada no repositório da Universidade de Lisboa e na plataforma EU-FarmBook.

– Formação MOOC, online gratuita e ao ritmo de cada um

Um curso organizado em módulos, com lições apoiadas por vídeos curtos, gravados no terreno e explicados por interlocutores do sector. As temáticas são abrangentes, focando gestão de riscos, adaptação climática, práticas regenerativas, governança comunitária e valorização económica de produtos florestais, entre outros. Contextualizados à realidade de cada país que integrou o ResAlliance, estão disponíveis em várias línguas. No caso português, existem vídeos sobre:

A formação MOOC – Massive open online course – está disponível no site do projeto.

ResAlliance: soluções para uma paisagem mediterrânica mais resiliente

– Concurso Call4Innovators

Um concurso dirigido a inovadores, que recebeu 28 submissões de soluções criativas para enfrentar os desafios climáticos.

De Portugal, destacam-se o projeto “Plantar Água” (ANP/WWF Portugal), as iniciativas LIFE Maronesa e LIFE ResLand, o InnoLab (caso-piloto em Monchique, Algarve) e o Sistema de Apoio à Decisão da REN (Redes Energéticas Nacionais) desenvolvido no projeto rePLANT.

ResAlliance promoveu concurso de inovação

– Livro Branco com recomendações políticas

Dirigido a decisores, apela a uma mudança sistémica na forma como o território é planeado, gerido, financiado e governado. Entre outras prioridades, defende:

  • Políticas integradas entre sectores e revisão de estratégias e regulamentos europeus e nacionais nas áreas do clima, biodiversidade, água, agricultura, floresta e desenvolvimento rural, incorporando explicitamente a resiliência da paisagem.
  • Uma resposta adaptada às realidades distintas da bacia Mediterrânica, que valorize práticas tradicionais e inovação, apoiada por mecanismos de transferência de conhecimento e cooperação entre países, regiões e sectores, superando barreiras linguísticas, administrativas, tecnológicas e institucionais.
  • Mecanismos financeiros de médio e longo prazo, acessíveis, estáveis e ajustados às especificidades das paisagens mediterrânicas, incluindo, entre outros, subsídios convencionais (como os da PAC), incentivos, pagamentos por serviços dos ecossistemas e créditos climáticos.
  • Parcerias duradouras entre administração pública, grupos sociais, proprietários, empresas, academia e sociedade civil, com responsabilidades partilhadas no planeamento, execução, financiamento e avaliação das soluções (coprodução institucionalizada).

Ao conjugar conhecimento científico, prática de terreno e envolvimento comunitário, o ResAlliance deixa um legado de recursos concretos para quem trabalha pela resiliência das paisagens mediterrânicas.

O legado do projeto ResAlliance pode ver maximizado o seu valor pela incorporação das recomendações e soluções testadas nas políticas públicas e pela utilização dos materiais desenvolvidos em novos programas de extensão rural e formação profissional. Será igualmente importante manter ativa a dinâmica de rede criada pela LandNet para a partilha entre produtores, investigadores e decisores, e continuar a monitorizar as soluções aplicadas nos LandLabs para gerar evidência contínua e facilitar a sua replicação. O financiamento, sobretudo para pequenas propriedades e territórios vulneráveis, é essencial para que a sua resiliência continue a reforçar-se.

Desenvolvido em colaboração com Joana Amaral Paulo e Paulo N. Firmino

Doutorada em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA), Joana Amaral Paulo é professora no ISA (nas áreas da Modelação Florestal e Sistemas Agroflorestais, entre outras) e investigadora no Centro de Estudos Florestais (CEF). Coordena a comissão do mestrado em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais e foi também coordenadora do projeto AcornDew e da participação do ISA no projeto ResAlliance. No CEF, lidera a linha de investigação Forchange. Adicionalmente, é membro fundador da Federação Europeia de Agrofloresta (EURAF).

Doutorado em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais (ISA), Paulo N. Firmino é Técnico Superior e investigador no Centro de Estudos Florestais (CEF). A sua área de trabalho centra-se na influência das variáveis edáficas, topográficas e da competição na qualidade e espessura da cortiça e na distribuição espacial do sobreiro.