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Plantas Medicinais

Árvores medicinais: o que nos oferecem como aliadas da saúde?

As aplicações terapêuticas de plantas fazem parte da história da saúde humana. Folhas, flores, frutos e até casca e raízes concentram diferentes compostos bioativos, alguns dos quais com interesse para o bem-estar humano. O fitoterapeuta Luís Pedro Salvador ajuda a descobrir três exemplos de árvores medicinais, cujos compostos, benefícios e limitações a ciência continua a estudar.

As árvores sustentam ecossistemas e fornecem-nos oxigénio, abrigo, sombra e alimento, ajudando também a regular a temperatura e a humidade. Além destes benefícios, muitas espécies são ainda fontes de compostos naturais bioativos que, ao longo da história, as tornaram reconhecidas como árvores medicinais.

Diferentes culturas usaram estas espécies para apoiar o seu bem-estar, aliviar sintomas ou complementar cuidados de saúde. Em alguns casos, esses usos tradicionais e utilizações contínuas são hoje reconhecidos pelas entidades reguladoras, como a Agência Europeia do Medicamento (EMA), que os valida como medicamentos à base de plantas ou medicamentos tradicionais à base de plantas.

Em paralelo, a ciência continua a aprofundar os perfis nutricionais e químicos das diferentes partes destas plantas e árvores medicinais, identificando biocompostos, mecanismos de ação, possíveis efeitos não desejados e interações com medicamentos. Em alguns casos, os resultados benéficos que lhes são atribuídos continuam a necessitar de estudos adicionais para compreender como atuam e determinar em que condições a utilização destes fitoquímicos é segura para o organismo humano.

Árvores medicinais têm longo uso tradicional

Sejam pequenas plantas, arbustos ou árvores medicinais, o seu potencial terapêutico está associado a compostos bioativos envolvidos no seu aroma, cor, defesa ou proteção contra agressões externas, que também interagem com o organismo. Entre estes compostos contam-se fitoquímicos como terpenos, flavonoides, taninos e antocianinas. Contudo, os preparados, extratos e suplementos que contêm estes fitoquímicos não estão isentos de risco, aconselhando-se o acompanhamento próximo por parte de um médico, fitoterapeuta ou outro profissional de saúde qualificado.

3 árvores medicinais: loureiro, bétula e pilriteiro

Descubra três exemplos destes arbustos e árvores medicinais usados na fitoterapia, o loureiro, a bétula e o pilriteiro, que tipos de compostos bioativos lhes estão associados, que tipo de benefícios podem proporcionar e quais os cuidados no seu uso terapêutico.

Loureiro: interesse antimicrobiano e anti-inflamatório

O loureiro (Laurus nobilis) é mais conhecido em Portugal pelo gosto e aroma peculiares, levemente frescos e picantes, que as suas folhas secas conferem aos cozinhados, mas o loureiro também tem lugar entre as árvores medicinais.

Historicamente, as folhas e flores de louro foram usadas para combater queixas associadas ao reumatismo, aliviar sintomas respiratórios e desconfortos digestivos. Alguns dos compostos fitoquímicos e mecanismos por detrás destes usos tradicionais têm vindo a ser investigados para ajudar a compreender estes benefícios.

Entre os mais investigados encontra-se um composto aromático volátil: o 1,8-cineol (ou eucaliptol), monoterpeno abundante nas folhas do loureiro e também nas do eucalipto e do alecrim, cuja atividade antimicrobiana foi avaliada por vários estudos laboratoriais.

  • Um destes estudos indicou, por exemplo, que graças ao 1,8-cineol, os óleos essenciais extraídos das folhas de loureiro foram particularmente ativos contra duas bactérias Gram-positivas – Staphylococcus aureus e Enterococcus faecalis – que estão na origem de infeções hospitalares resistentes (cutâneas, urinárias, sanguíneas, pulmonares, entre outras).
  • Outro estudo sugere que o óleo essencial Laurus nobilis combinado com antibióticos, ampliou de forma considerável o efeito de bactericidas (que matam as bactérias) e de bacteriostáticos (que as impedem de crescer e multiplicar-se) em bactérias Gram-negativas: Escherichia coli, associada a infeções urinárias, gastroenterites e infeções sanguíneas, por exemplo, e Pseudomonas aeruginosa, uma das causadoras de infeções hospitalares que afeta principalmente pessoas imunodeprimidas.
Loureiro também é uma árvore medicinal

O louro constitui uma boa fonte de vitaminas A, B6 e C, assim como de cálcio e potássio.

Ao cineol são também reconhecidas propriedades anti-inflamatórias e broncodilatadoras, estudadas sobretudo em contexto laboratorial e farmacológico. Estas características ajudam a enquadrar a tradição do uso do louro como coadjuvante da saúde respiratória. Adicionalmente, possui propriedades diaforéticas (ou sodoríferas), promovendo a transpiração, o que alivia igualmente os sintomas da gripe e constipação.

louro: um condimento com uso na medicina tradicional

Os compostos voláteis presentes nas folhas de louro são ainda considerados um aliado da saúde digestiva. Por um lado, atuam como carminativo, ajudando a combater a formação de gases intestinais e facilitando a respetiva expulsão. Por outro lado, como contêm taninos, apoiam uma ação levemente adstringente, que ajuda a proteger o estômago e a reduzir a diarreia.

O loureiro é uma árvore natural da região mediterrânea e, em Portugal, existe em praticamente todo o território continental. As flores amarelo-pálidas surgem de fevereiro a maio. Além dos usos gastronómicos e medicinais, as suas folhas verde-escuras e lanceoladas também podem ser usadas em perfumaria. Nas ilhas existem outras duas espécies endémicas: o louro-da-terra, nos Açores, e o loureiro-da-Madeira.

Bétula-pendula: uma aliada tradicional do trato urinário

Nas bétulas ou vidoeiros, a espécie Betula pendula tem um longo histórico de uso entre as árvores medicinais, valorizada tradicionalmente para aliviar sintomas de reumatismo, de infeções urinárias e de desconforto dermatológico.

A seiva da bétula contém sais minerais, como cálcio, manganésio, potássio e zinco e, em alguns países, a sua seiva fermentada tem tradição de consumo associada à sua ação diurética. Esta capacidade de aumentar a proteção de urina ajuda os órgãos depuradores, como o fígado e os rins, na eliminação de toxinas e na depuração dos resíduos metabólicos do organismo.

Uma revisão de vários estudos sobre a bétula associa os compostos bioativos presentes nas folhas, casca e seiva a atividades diuréticas, anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas e dermatológicas, embora os autores sublinhem a necessidade de mais estudos clínicos para que se possam confirmar eficácia e segurança em muitas destas aplicações.

Um dos fitoquímicos presentes principalmente na casca da bétula é um triterpeno batizado como betulina. Extratos de bétula-pendula avaliados em testes laboratoriais, indicaram que este composto pode ter um efeito anti-inflamatório sobre as bactérias que causam infeções no sistema urinário.

Adicionalmente, a betulina mostrou-se promissora em dificultar a adesão das bactérias às células do trato urinário e a formação de biofilmes bacterianos, estruturas protetoras que ajudam micro-organismos, como a Escherichia coli, a aderir e resistir ao tratamento.

Bétula tem longa tradição medicinal

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) reconhece a validade do uso empírico das folhas de bétula e indica-as no tratamento de problemas menores do trato urinário, pela sua ação diurética, embora assuma que falta maior robustez (mais ensaios clínicos) para validar o seu efeito. Em paralelo, adverte que os preparados usados para fomentar esta ação diurética não devem ser utilizados em situações de doença cardíaca ou renal grave, quando há necessidade de reduzir a ingestão de líquidos.

Bétula: longa tradição entre as árvores medicinais

A bétula-pendula é uma árvore natural de boa parte da Europa e de regiões da Ásia, mas não é nativa em Portugal. É uma espécie de folha caduca, facilmente identificada pelo tronco de tonalidade discretamente prateada, cor atribuída à casca esbranquiçada (que se desfaz, escurece e cai). Os seus ramos pendentes e as folhas – que, no outono, se tornam amarelas – contribuem para a sua valorização como espécie ornamental. Pensa-se que terá sido por esta via que a espécie chegou a Portugal.

Pilriteiro: a “árvore do coração”

O pilriteiro (Crataegus monogyna) é principalmente conhecido pelos seus frutos vermelhos, comestíveis e nutritivos, que são uma importante fonte de alimento para as aves e têm longa tradição na alimentação humana, em geleias, doces e licores (mais do que crus, pois podem ser ácidos e têm sua textura farinhenta). Tão ou mais antiga é a sua associação à medicina tradicional.

O botânico e médico Dioscórides, “pai” da farmacognosia, já fazia referência a esta espécie na sua obra “De materia medica”, e ao longo dos séculos, muitos outros a referiram como “árvore do coração”, dada a sua afinidade com o sistema cardiovascular.

Na medicina tradicional, o pilriteiro tem sido usado como tónico cardíaco e este seu uso é reconhecido pelo Comité dos Medicamentos à Base de Plantas (HMPC) da EMA, para alívio de queixas cardíacas ligeiras de origem nervosa, como palpitações associadas a ansiedade, quando a avaliação médica já excluiu que não existem outras situações mais graves. Os mecanismos por detrás desta ação não estão ainda totalmente esclarecidos, mas os fitoquímicos presentes na espécie têm sido estudados pelos seus potenciais efeitos cardioprotetores.

Usos medicinais tradicionais do pilriteiro

Um estudo de revisão sobre o pilriteiro confirma a sua longa tradição entre arbustos e árvores medicinais e identifica vários compostos bioativos presentes na espécie, incluindo flavonoides, antocianinas, taninos e outros antioxidantes. Entre os flavonoides presentes, o hiperósido e a rutina têm sido associados ao relaxamento da musculatura lisa dos vasos sanguíneos. Este mecanismo pode ajudar a explicar o interesse tradicional do pilriteiro no apoio ao sistema cardiovascular e a sua investigação no contexto da regulação da tensão arterial. Outra possível via de ação está relacionada com a capacidade atribuída a alguns flavonoides para modular enzimas envolvidas na regulação da tensão arterial, como a Enzima Conversora da Angiotensina (ECA).

Adicionalmente, os efeitos do pilriteiro como “árvore do coração” podem ser reforçados por outros fitoquímicos, como as antocianinas. Além de serem pigmentos naturais que dão cor aos pilritos e de terem atividade antioxidante, estas substâncias têm sido estudadas pelo seu possível contributo para a proteção do miocárdio e da parede vascular.

Apesar deste potencial, os preparados, extratos ou suplementos de pilriteiro podem ter interações indesejadas em pessoas que tomam medicação cardiovascular (antiagregantes plaquetários, anticoagulantes, digoxina, entre outros). Mesmo para quem não tem doenças diagnosticadas, é essencial o acompanhamento próximo por parte de um profissional de saúde qualificado.

Pilriteiro é conhecido como 'árvore do coração'

O pilriteiro pode ter porte de arbusto ou crescer como uma pequena árvore. É uma espécie nativa em Portugal, que prefere solos húmidos, embora seja resistente e adaptável às temperaturas extremas. É uma espécie de grande longevidade e longa é também a tradição de consumo dos seus frutos, principalmente transformados, pois os frutos frescos têm um sabor ácido e uma textura farinhenta que não agrada a todos.

Em colaboração com Luís Pedro Salvador

Luís Pedro Salvador é fitoterapeuta, com cédula profissional atribuída pela ACSS – Administração Central do Sistema de Saúde. Além de desenvolver esta atividade, com consultas de fitoterapia clínica, dá a conhecer regularmente no seu Instagram, em https://www.instagram.com/fitoptm/, o potencial terapêutico dos ativos naturais, desde os mecanismos de ação de diferentes plantas aos métodos de obtenção de extratos vegetais e benefícios específicos das mais variadas espécies.

Luís Pedro Salvador tem formação avançada em Nutrição Clínica e formação base em Fitoterapia Ocidental e Oriental. Adicionalmente tem frequentado formações avançadas sobre a suplementação alimentar natural, nutrição e microbioma e micoterapia. Concluiu também a formação contínua “Interações planta-alimento-medicamento”, pela Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto.